segunda-feira, 30 de março de 2009

nefertari, a mais bela


à noite, embriagado de paixão e êxtase, mergulhei em oníricas e piramidais digressões. E lá estava eu, como o pai do grande Imhotep, o construtor de pirâmides, a apreciar uma das mais belas formas femininas que o mundo já viu.



os cântaros jorravam perenemente líquidos aromáticos pelo interior do palácio, as divas vagavam com seus passos lépidos, ventilava uma brisa revolvida pelo adejar das aves canoras; de castiçais, luziam as flâmulas eternas.



nefertari, a musa poetisa de meu palácio, reluzia em todo o seu esplendor. Tecidos finos envolviam seu corpo nu, transparecendo toda a magia de sua soberba beleza. Soa o som das flautas, Nefertari dança votivamente em minha direção. Seu semblante delicia-me, seus olhos me sugam, as mãos serpenteiam levemente descrevendo enigmáticas formas no ar; meu coração desanda, minha imaginação desnuda-a, meus olhos marejam, embaçam, embuçam, o corpo tremeluzente regela, o suor me afoga, os lábios se crispam secos; Nefertari me afaga. Embora seus olhos sejam imantados, como os de uma deusa, sou tragado pelo chácara ondulante de seu ventre. Num frenético e delicioso movimento de cadeiras, cintura, quadris, ventre livre e umbigo. A cada jogar de quadril uma peça fina do delicado tecido colorido cai de sua cintura.



a luz, que provêm dos castiçais, aumenta a dramaticidade na nave do palácio; esmaecida, tremeluzente, agora ela revela somente a silhueta delgada da deusa. Nefertari está nua, levo-a para o pálio de sedas, ela me desnuda. As bocas se beijam, as mãos se abraçam, os corpos se lambem. O umbigo, as bordas eriçadas dos pelos do umbigo convidam-me. Sugo, sorvo, embriago-me de sua pujante e jorrante fonte de delícias, Nefertari, como convém às deusas, reluz em seu semblante de êxtase, ofega hídrica e épica. Entramos um dentro do outro, e juntos cavalgamos numa viagem de sentidos e sensações, o cavalo alado em que nos transformamos leva-nos ao paraíso dos amantes lívidos.



nefertari, minha deliciosa deusa, seu corpo é todo um poema em homenagem ao sol, e pra lá estamos indo, quentes, úmidos, abrasivos e tântricos. Feliz és o Egipto e toda a sua gente: um faraó amante e amado, uma rainha divina e cheia de encantos, faz um reino de beleza e delícias ser o paraíso para os que nele vivem. Feliz é o povo de Nefertari, feliz é a nação de Egipto, mais feliz sou eu, Ramsés II, aquele que é visitado pelo amor em seus sonhos reais de alcova.



ah, como sou venturoso, ah como é feliz a minha alma, como é fraterna a minha musa, como é doce o meu destino. Em teus braços quero morrer, bela Nefertari, em prazeroso e tântrico deleite!


Lelê Teles, Brasília

quarta-feira, 18 de março de 2009

terça-feira, 10 de março de 2009

my michelle

a senhora Obama e seu charme inconfundível

Michelle
ma belle
Sont les mots qui vont trés bien ensemble
Trés bien ensemble
(Lennon and McCartney)

eva uma ova

eva
Eva não foi a primeira mulher
Eva foi a primeira mulher de Adão
Ele tinha outras!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

sarah





Toda vez que chovia a pequena Sara corria pro quintal e girava sorrindo. Nestas tardes pluviais, ela punha um vestidinho branco e fino; adorava as bátegas vergastando o seu vestido, lambendo-lhe o rosto, grudando-lhe as vestes nas carnes, como que desnudando-a. Os pensamentos iam e vinham; looonges.




Cresceu sob o manto rígido do pai e acostumou-se à ausência da mãe. Sempre que podia o pai lembrava que sua mãe, Ana, havia ido embora com outro homem e que a deixou porque não queria mais a filha, queria liberdade. O pai a descrevia como uma libertina impudente e criou a filha, Sarah, pra ser o oposto da mãe; para tanto, sempre que conversavam, contava-lhe as fugas noturnas da mãe, os amantes que o pai fingia ignorar para manter a família e os papos com macho ao telefone, com ele na sala, vendo televisão e fingindo não saber do que se tratava; era um homem domesticado, conivente e frouxo. Um corno manso, em suma.







Sarah ouvia tudo com uma pontinha de surpresa e um pouco de admiração. Notava quanto o pai, Rodolfo, amava Ana. Percebia que Ana tinha muitos homens e que eles faziam tudo para tê-la. Sarah se esforaçava para se mostrar constrangida e consternada toda vez que o pai lhe contava as peripécias da mãe, "aquela safada", "aquela puta que não vale nada"... como costumava descrevê-la para a filha.



Rodolfo, toda vez que via a filha rodopiar no quintal, sob a chuva forte, via o corpo sensual de Ana, o sorriso lascivo de Ana, o jeito de menear a cabeça que só Ana tinha, a forma de tocar os seios - com as duas mãos cheias e os indicadores e os opositores a acariciar os mamilos. Sarah fingia não ver o pai e levantava o vestido, às vezes o tirava. Outras vezes rolava no chão e enlameava-se nua. Sempre com um riso largo, folgado, concupiscente. Rodolfo fechava a janela e chorava.






Sara nunca falou em namoros nem em meninos em casa. Vivia às voltas com umas amiguinhas. Aos quinze anos, Sarah já era uma mocinha formosa. Busto apojado, lábios lânguidos, olhar ingênuo, corpo saliente… A cada dia Rodolfo notava uma nova semelhança com a mãe. O jeito de sorrir e mexer nos cabelos, a maneira de olhar para os homens - misto de convidativa e desinteressada -, o sorriso largo e folgado, a preferência por roupas que lhe desnudavam as coxas, as calcinhas minúsculas, quase inexistentes…







Rodolfo passou a ficar paranóico e a perseguir a filha, usar adjetivos nunca dantes usados, acusá-la de namorar escondida etc. Até que romperam, Rodolfo disse a ela na última vez que se falaram: "você é igualzinha a sua mãe, vocês duas não valem nada". Ao passo que Sarah lhe respondeu: "pensa que não sei que você me olha tomando banho de chuva e de chuveiro. Que você me deseja, que se mortifica porque não pode me ter. Seu velho safado, se não fosse frouxo e tivesse coragem faria comigo o que não pode fazer com minha mãe. Eu não sou santa, pai, eu nasci puta!" A partir deste dia nunca mais falaram um com o outro.







Três meses depois, numa tarde de chuva intensa, Sarah brincava de rodopios debaixo d'água, Rodolfo lambia a vidraça da janela, entre lágrimas. Uma buzina toca, duas, três vezes. Rodolfo e Sarah não ouvem. Até que Ana entra subitamente no quintal. Vê a filha rodando, nua, e enxerga o pai à janela. Ana grita o nome de Sarah, Sarah se vira e vê a mãe. Ana tira o chale que lhe cobre o corpo e veste a filha. As duas se abraçam molhadas. Ana pede pra filha olhar a janela e Sarah vê o pai, fala baixinho pra mãe que ele sempre a vê tomando banho. Rodolfo vê Ana abraçada com Sarah e não sabe como reagir, fica ali, parado, inerte, inútil.
As duas entram em casa, Ana o agride e o chama de tarado, de velho sem vergonha, safado, cachorro, grita, esmurra, morde e leva a filha embora.




Sarah entra na caminhonete importada da mãe, vislumbrando suas roupas sofisticadas, seu ar de madame. No caminho Ana pede desculpas, diz que não podia mais viver com Rodolfo, mas temia que ele se matasse se ficasse sem a mulher e a filha, tudo o que ele tinha na vida. Esperava a hora certa de ir buscá-la.






Chegando na bela e ampla casa de Ana, Sarah se depara com quadros da mãe, pintados em grafite. Ana em poses sensuais, sempre com um lençol branco ao fundo, os tons em preto e branco, as coxas sempre mais grossas do que são realmente, os seios também eram estilizados, maiores, mais volumosos, jactantes.





Ana diz que o marido é artista plástico e fotógrafo e um homem muito bom pra ela, leal, fiel e amantíssimo. Disse que desde que conheceu Raul nunca mais quis saber de outro homem, que ele era maravilhoso, carinhoso, amante de vinhos, de versos e de valsas. Infelizmente Raul estava viajando, chegaria dali a duas semanas.






Sarah conhece o seu quarto, já montado para recebê-la. Sorri de felicidade, as duas tomam vinho e conversam até adormecer. Ficam amigas, Sarah fala pra mãe sobre os desejos proibidos do pai, a mãe chora. Afaga a filha, beija-a. Pergunta se ele a violou, ela responde que ainda é virgem. A mãe a olha com ternura.






Duas semanas depois Raul chega em casa. Um homem cinquentão. Grisalho, pele bronzeada, voz grave e vigorosa. Recebe Sarah carinhosamente, como a uma filha. Os três estão felizes.






Às noites tomam vinho em volta da piscina ou da lareira, Sarah recita uns poeminhas picantes, mas que não chegam a ser eróticos, ana a introduz à dança do ventre. Uma família que se diverte e se respeita. Sarah passa a usar roupas cada vez mais curtas, cada dia mais saliente, cada noite mais fogosa. Uma noite Raul está pintando a mãe no ateliê, Sarah entra subitamente, se despe e posa ao lado da mãe, imitando-a, e pergunta maliciosamente a Raul: "acho que você nunca pintou uma virgem, essa é a sua oportunidade". Falou isso e segurou os seios com as duas mãos, como fazia a mãe. Esse mimetismo deixou Raul desconcertado.






Nua, Sarah tem a forma idealizada por Raul no corpo de Ana: seios fartos, coxas grossas, bunda redonda, lábios carnudos. Inevitavelmente Raul vê em Sarah uma miniatura da mãe, uma Ana na flor da idade, uma Ana indeflorada. Após as longas horas de pintura, Sarah pediu pra ser fotografada. Como tomavam vinho e estavam inebriados, todos faziam tudo inconsequentemente. Sarah se deliciava, sobretudo quando percebia uma pontinha de ciúmes da mãe.






Numa manhã iluminada e com pássaros gorjeando rimas, Sarah encontrou um livro do Kama Sutra no ateliê de Raul e viu na internet umas páginas relacionadas ao tântra, que Raul marcara em seus favoritos. Quando teve oportunidade, conversou sobre o tântra com Raul e pediu pra fotografar algumas poses que vira no Kama Sutra. Ana não estava em casa. Raul colocou a câmera no automático algumas vezes pra reproduzir com ela algumas cenas. Depois conversaram à lareira sobre o tântra. Raul propôs iniciá-la no sexo tântrico.






Ambos se deitaram nus, besuntaram o corpo com óleo aromático, acenderam um incenso cada um e mergulharam na meditação mântrica. Em pouco tempo Raul estava sobre Sarah, tântricamente.
Ao chegar, Ana vê a cena e se desespera. Puxa uma espada medieval que adornava a parede e enfia-a nas costas de Raul que cai ferido de morte. Sarah olha perplexa pra mãe e grita: "mãe, não estávamos fazendo nada de mais, Raul me iniciava na arte do tântra, sem penetração, mãe, eu sou virgem como te disse e Raul não queria fazer nada disso, eu é que insisti. Me perdoa, mãe, mas só tive coragem de fazer isso porque eu confiei nele e ele confiava em mim".






Ana passava as mãos pelos cabelos, desesperada, Raul, tombado ao lado de Sarah, já não respirava.




Lelê Teles, Brasília

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

taças de leite


duas taças,
deleite.

hai kai balão

shoot the shoe



Hai kai midiático:
VEJA,
O GLOBO
É UMA FOLHA MORTA


Hai kai ONGuico:
SE ACABAR A MISÉIRA NO MUNDO
EU MORRO DE FOME



Hai kai neoliberal:
SÓ O ESTADO
PRA ME TIRAR
DESTE ESTADO


Hai kai vegetariano:
VEGETARIANO
POR ISSO,
AINDA VIRGEM


hai kai bolivariano:
EVOÉ,
EVO
EVO, É.


hai kai neocon:
NÃO PRECISA ACREDITAR EM MIM
BASTA ACREDITAR EM DEUS



Hai Kai Moderno:
EU SOU COMUNISTA.
MINHA ESPOSA,
CONSUMISTA.
A GENTE SE AMA!




Lelê Teles, Brasília

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

os homens-alicerce

Primeiro plano: um pau-de-arara com esquálidos nordestinos que nunca haviam visto concreto, aço, nem máquinas de construção civil. Trabalhadores desqualificados erigiram o sonho do faraó Juscelino Himhotep de Oliveira. Ao fundo, o esqueleto do Congresso Nacional, erguido sobre outros esqueletos. Desde sua construção o Congresso Nacional é um grande agá.




QUANDO CHEGARAM AQUI ELES TAMBÉM TINHAM DESERTOS DENTRO DE SI

VINHAM DE LUGARES DE FOME

EMPOLEIRADOS EM PAUS-DE-ARARA EMPOEIRADOS




RAIMUNDOS, NONATOS, FRANCISCOS, EUSTÁQUIOS...


NÃO TINHAM QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL

NEM NUNCA FREQUENTARAM UM CANTEIRO DE OBRAS, AFINAL.

MUITOS NUNCA HAVIAM VISTO UMA OBRA FEITA PELO HOMEM

(PELOS MENOS UMA QUE FOSSE DIGNA DESSE NOME)



COMO EM UM MILAGRE,

DE UMA HORA PRA OUTRA,

CRIARAM UM LINDA IMAGEM

EDIFICARAM PALÁCIOS COM COLUNAS E VITRAIS

ERGUERAM MUSEUS, MINISTÉRIOS E CATEDRAIS

CONSTRUÍRAM PONTES, PONTOS, VIADUTOS, USINAS

PARIRAM LAGO, GERARAM VIAS, ENGENDRARAM VIGAS



PORÉM, HÁ UMA HISTÓRIA CONTADA QUE AINDA ECOA NOS MEUS OUVIDOS,

E SILENCIADA NESSE MAJESTOSO ESPAÇO ENTRE O CONCRETO LINEAR E O GALHO RETORCIDO

A HISTÓRIA DOS HOMENS-ALICERCE



OS HOMENS-ALICERCE VIERAM DA MESMA REGIÃO DOS CHAMADOS PIONEIROS

CHEGARAM JUNTOS, NÃO CHEGARAM PRIMEIRO

COMERAM A MESMA MARMITA, DORMIRAM NA MESMA DORMIDA

E TAMBÉM AJUDARAM A EDIFICAR, MAS TIVERAM UM FINAL NADA EDIFICANTE



BRASÍLIA FOI FEITA A TOQUE-DE-CAIXA

O RITMO FRENÉTICO, DIUTURNO, NA VELOCIDADE DAS EDIFICAÇÕES PIRAMIDAIS

PRODUZIRAM RAPIDAMENTE UM GRANDE CONTINGENTE DE VITMAS FATAIS



BRASÍLIA, A JACTANTE E MAJESTOSA CAPITAL

FOI A NOSSA EPOPÉIA E O NOSSO PIONEIRICÍDIO FEDERAL


MUITOS MORRERAM CAINDO DE ANDAIMES, PENDURADOS EM CAIBROS

ESCORREGANDO DE ESCADAS, SOTERRADOS EM AVALANCHES DE SAIBRO

TRITURADOS EM MÁQUINAS, ARRASTADOS POR ESCAVADEIRAS, EXPLODIDOS EM PEDREIRAS...

ALVEJADOS POR TIROS!


(OLHA, DEIXA EU TE DIZER UMA COISA,

PODE TER UM CANDANGO NUMA PILASTRA DO SEU PRÉDIO!)


ELES MORRIAM AOS MONTES,

VOCÊ SABE ONDE FICA O MEMORIAL EM HOMENAGEM AOS QUE MORRERAM

PARA VER O SONHO DO FARAÓ REALIZADO?

SABE ONDE OS CORPOS FORAM SEPULTADOS?

ELES VIRARAM MASSA, REJUNTE, BRITA, CASCALHO...

NO ACAMPAMENTO PACHECO FERNANDES,

(NA VILA PLANALTO)

DEZENAS DELES FORAM FUZILADOS PELO EXÉRCITO INFAME

(NO CANTEIRO DE OBRAS, NA BEIRA DO ASFALTO)

O LAGO FOI INUNDADO `AS PRESSAS, SEM ESPERA

AFOGANDO AS HUMILDES MORADAS DOS PIONEIROS

QUE ENCONTRAVAM ABRIGO NA SUA CRATERA


QUEM VAI CONTAR A HISTÓRIA DESSES HOMENS, MEU DEUS!


OS HOMENS-ALICERCE

NÃO FAZEM PARTE DA MEMÓRIA DA CIDADE,

EMBORA INSISTAM EM RESSUSCITAR E CONTAR A SUA VERDADE.




Lelê Teles, Brasília.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

E se você estivesse aqui

Isis, minha amiga do coração.


Hoje mesmo eu estaria, se aí estivesse, a atirar pedras n'água e ver os círculos concêntricos se abrindo pela força centrífuga que a pedra suscita. Como um náufrago que encontra a garrafa e bebe a carta que nela habita.
E a cada pedrinha, uma nova ondina rodopiando na minha cabeça, chacoalhando tudo para por tudo no lugar, só para desarrumar depois; infinitamente. Se aí estivesse sentiria o mesmo que você sente.
Se tivesse aí, agora, a ver o laguinho que a cachoeira produz, estaria como você, amor; estaria como o homem seminu que morreu na cruz: completamente dentro de mim e todo exterior.

Lelê Teles, Brasília

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

mi payasita

minha linda palhacinha


















Jackie

Domingo, dominus dei. Antes de começar a leitura de Padre Antônio Vieira abro o imêio. Há um somente, e é da Jackie. "Para Alfredo, com carinho". Abro, uma foto linda. O ambiente é iluminado por luzes que vêm de velas acesas, aprumadas por belíssimos castiçais. A luz realça e contorna o escuro, magnífico artifício. Seguramente é a mesma luz que utilizava Caravaggio, Rembrandt e Velásquez. 
O cenário é rústico e belo: uma poltrona aveludada e de cor fulva, uma ave empalada e igualmente aterciopelada, uns tecidos finos e translúcidos sobre o resto da mobília que compunha a ampla sala onde a foto fora feita. 
Em destaque: uma mulher, imagem feita por cima dos ombros, ela levemente inclinada para tocar os pés, as costas nuas, as pernas nuas. De frente e agachada, uma outra mulher de feições exóticas. A mulher que está sentada é Jackie, conozco sus espaldas, a mulher que a defronta está com um cântaro na mão, enquanto que a outra mão está delicadamente segurando um dos pés de Jackie. 
Os pés estão besuntados, pela forma com que Jackie se curva para frente parece que ela vai repreender a moça do cântaro. Fico firmemente absorto, a foto me suga, mas não consigo compreender o que quer dizer. Em seguida vem outra foto. 
Agora nota-se uma alcova, um pálio com sedas transparentes, tapetes forrando o chão, dois homens seminus de pé. Sentada, à cabeceira da cama, está Jackie. Veste o que seria uma camisola, mas o ombro que se mostra está desnudo. A tomada é lateral e vemos a moça de frente para o espelho, nota-se a dupla imagem, ela se contempla simplesmente. 
A cena é linda, fico nela por alguns minutos. Os lábios estão entreabertos, os cílios despencam, o seio se mostra meigo. O lugar parece um cenário feito só pra estas fotos, nunca vi nada em nenhum lugar parecido a isso, em nenhures, ou nusquam, como se diz em latim. 
Mas ainda havia uma terceira foto, uma escada enorme e um pouco espiralada. Embaixo da escada, ao pé, estava Jackie, esperando alguém. Acima, ainda com a iluminação das velas que tremiam nos castiçais, apenas um vulto indistinguível; na escada subiam mulheres nuas de um lado e desciam homens nus do outro.
No final de tudo um textinho curto: Adorável Alfredo, feliz por você ter matado a charada do outro imêiu com tamanha argúcia, em anexo tô mandando uma foto exclusiva pelo seu merecimento. Quer mais? Então vamos a isto: Jefferson, o iníquo, nos remonta a Protágoras; Lula, ao chamar pra si o discurso ético compreende Protágoras em Jefferson e se faz medir medindo-se. Jacó. Beijos. Eternamente, Jackie.
 

Que jactância, a foto era muito mais do que o que eu merecia por um simples jogo de charadas. De costas, deitada, nua, com o corpo cheio de óleo aromático (imagino), um pote pequeno com óleo ao lado. Ela sobre a esteira. Entrava uma luz clara e amarelada pela janela, as cortinas adejavam lentas. Ela estava de bruços, com a perna esquerda esticada e a direita levemente curvada, como que fazendo um P com as pernas. No pescoço, ela está de cabelos curtíssimos, há uma tatuagem em hebraico escrito "e o verbo se fez carne". A foto foi feita a partir dos pés, a vista era deslumbrante. 
Fiquei boquiaberto, as mãos pediam cigarro, acendi. Coloquei a foto como protetor de tela e fui digerir o que tudo aquilo queria dizer. Se ficasse olhando a beleza das fotografias iria sempre viajar para os antípodas da mente, como diria Huxley. Peguei um livro de Antônio Vieira e fui pra rede descansar. 
Jefferson, Lula, Protágoras, Jacó. Uma escada, uma moça com um cântaro, velas e castiçais, nada mais. Vou montar, quero mais destas lindas fotografias. Espalhei as palavras do meu puzzle pelo chão imaginário e fui montando com a mente, peça por peça. O que tem Jefferson, Protágoras, Lula e Jacó a ver um com o outro? Encontrei o elo entre Protágoras e as bravatas de Jefferson, uma parte tá pronta. Lula compreende Jefferson, pronta a outra parte. Que diabos Jacó faz aqui? 
As fotos, as imagens devem ter algo a ver com isso. A moça do cântaro nada tem a ver com Jacó, montei todo tipo de combinação e nada. Mesmo porque, assim, sem sobrenome, este Jacó só pode ser o personagem bíblico. Puta madre, claro, o cântaro nos remete a Pedro (Domine, tu mihi lavas pedes). Jesus lavando os pés dos discípulos. Pedro, como sempre, hesitante (tu mihi, vós a mim?). Por isso Jackie parece repreender a moça que lhe vai lavar os pés, era uma dica a que texto consultar. Então, lembrei-me de um Sermão de Padre Antônio Vieira onde ele fala da encarnação de Deus, todo confuso o texto, talvez o mais confuso de Vieira. Mas há ali a imagem da escada, Jacó vê uma escada que vem do céu e anjos subindo e descendo, ele percebe que não pode subir e observa que Deus não desce, então ele se dá conta da tamanha distância entre Deus e o Homem e ratifica a imagem dos anjos como seres intermediários e intermediadores. É disso que se trata, vamos à frente. 
 

Jefferson é um gatuno de primeiro time. Um "sócio" seu foi pego nos Correios com a boca na butija. A casa caiu. Percebendo-se no pior dos mundos, Jefferson lembrou-se da ópera, e percebeu que tudo começa com um crescendo até ter um ápice, as pessoas estão prontas pra essa fórmula, por que não tentar? Então dedurou todo mundo, jogou merda no ventilador e misturou fatos reais com invenções absurdas, como a de duas malas enormes pra levar 4 milhões de reais, esta quantia cabe em duas valises. 
Então montou um esquema, denunciou uma operação de roubo escandalosamente gigante, acusou todo mundo e livrou somente Lula da Silva. O povo, que deveria atirar pedras em Jefferson já o via como um injustiçado querendo fazer justiça, já não saía de casa pra não ter que dar autógrafo; de vilão a mocinho em um ato. O mais absurdo é que no Roda Viva Jefferson se mostra corrupto, mas diz que em seu conceito não o é, disse que não é corrupto mas afirmou que a política corrompe e que ele já está na política há mais de 20 anos, e repete o que todo mundo sabe, Lula é um caro ético e justo, com isso agrega à sua imagem este homem ético e justo, um truque. 
Aí está Protágoras, "o homem é a medida de todas as coisas". No tempo de Protágoras o homem não significava a humanidade, mas sim o indivíduo. Jefferson mede tudo a partir de si mesmo, e a partir dele tudo é mensurável, inclusive a ética, e era disso exatamente que falava Protágoras. No mesmo programa em que Jefferson disse que as pessoas poderiam acreditar nele porque ele falava a verdade, disse que defendeu Collor de 103 acusações e Collor se livrou de todas. Se temos que acreditar em Jefferson então devemos crer que Collor é inocente! 
A outra parte diz "Lula, ao chamar pra si o discurso ético compreende Protágoras em Jefferson e se faz medir medindo-se". Bom, aqui fica claro que Lula compreendeu a aproximação conceitual de Bob Jefferson e saiu-se em defesa de si mesmo.
 

Agora vejo a leitura que Jackie fez do pronunciamento do presidente remontando a uma metáfora bíblica: In principio erat Verbum, Verbum caro factum est e em seguida: Et habitavit in nobis. O verbo se fez carne e habitou em nós, porque não disse habitou entre nós, perguntava Antônio Vieira no Sermão do Mandato. Se a ética era algo que estava entre Lula e os seus, então o presidente teria que ter um partido inteiramente ético e andar com pessoas inteiramente éticas. Se Deus está entre nós ele não pode estar em todo lugar, mas se ele está em nós ele está por toda parte ("Enquanto encarnado, se estava Cristo em uma cidade, não estava noutra: enquanto sacramentado, não só está em todas as cidades, senão em tantas partes da mesma cidade em quantas hoje o temos", Vieira). 
Lula disse que a moral ele aprendeu com os pais e passava para os filhos, não seria um mandato passageiro que determinaria se ele era ou não ético. Assim, Lula trouxe pra si o discurso protagórico e chutou Jefferson, "eu meço a ética e a moral porque ela parte de mim, é um princípio meu. Jefferson é um canalha que se agrega aos outros para agregar valor a si mesmo". No velho testamento diz Davi: Abyssus abyssum invocat, um abismo chama outro abismo. E estão os dois à beira do precipício, Jefferson não tem tanta bala na agulha, os gestos são repetitivos, a oratória é cansativa, a voz não é muito boa, outro dia voltava da dentista e passei debaixo do prédio onde ele mora e ouvi o que chamam de um homem cantando óperas; sinceramente, francamente!
 

Assim, por meio da escada de Jacó vemos que Lula não desce até o patamar de Jefferson, e este não subirá jamais ao trono onde se senta o ex-operário. Os mensaleiros são os querubins e serafins do nosso presidencialismo cínico, dependente de apátridas que sobem e descem a todo instante e servem a dois senhores. Matei mais uma charada. Quando será que Jackie volta ao Brasil?

todo en la vida es sueño

A magestosa e caríssima Ponte JK. "Uns querem transformá-la em cartão-postal; outros, em inquérito policial" (GOG).
Se chamava Washington. Aliás, chamavam-no Washington, ou melhor o seu nome era Washington, mas todos chamavam-no Uoshto. Creio que ele próprio não sabia a grafia de seu nome; nasceu assim, meio torto, claudicante, de viés. Sonhava como todo menino, dormindo e acordado, sonhava mais acordado que dormindo. O seu sono não era tranqüilo, tinha sempre um rá tá tá tá, um tiroteio noturno, vizinhos se esbofeteando de madrugada, cachorros dando carreira em desocupados, os cachaceiros que cantavam ao longe.
Mas mesmo assim ele sonhava...
...no sonho ele flutuava; pétala que se desprega e vai descrevendo um poema no ar. A gota de orvalho cintila náufraga a anunciar o silêncio sombrio das fragatas a singrar. Uoxto sonhava com sabores inauditos, texturas nunca dantes experimentadas, sonhava também com o olfato. De facto criava um mundo inefável na fantasia onírica.
Mas o sonho não é reminiscência, não é lembrança da vida em vigília? Oshto, como não tinha tempo pra teorizar - nem método - ia assim, sem querer, desafiando as teorias que pretendem dar conta do material singular que permite ao homem uma dose de torpor e encantamento. Sempre lhe vinha o que ele nunca via, como um fomentador de desejos. Os sonhos criavam nele desejos e os satisfaziam, como faz a publicidade; não, não, a publicidade apenas fomenta desejos, o dinheiro é que os sacia. Já sonhou em línguas que ele nunca ouviu, parlamentando com autos signatários, articulando bem e descrevendo sintagmas dentro de uma estrutura ignota.
A mãe o acorda aos berros: "Óxto, acorda doido, vai procurar alguma coisa pra cumê que tua irmã morre de fome enquanto tu fica aí, como fi de adevogado, de boca aberta".
Toda manhã era assim, sacolejado pela mãe, levantava vôo em direção à cidade em busca do que fazer, na ânsia do que comer. Morava debaixo da ponte JK, também conhecida como terceira ponte, que liga a cidade de Brasília ao bairro do Lago Sul, que tem o IDH igual ao da Noruega. Ali, debaixo da ponte, uma favelinha ia vivendo com a vizinhança abjeta que descarregava neles todos os dejetos diários. Além do alarido do tráfego trêfego. Todas as manhãs Oshto despertava ao som das embarcações: lanchas, iates, kite surf, esquifes, caiaques etc. Brasília é a terceira cidade brasileira em número de embarcações náuticas!
Óshto celebrava aquele playground aquático onde ele jamais estaria fisicamente, mas já sonhou com um mar azul e flutuante, ele nadava em bolhas d’água no refluxo matinal de nove luas em planeta ignoto. Dançava ao som das nuvens em deslocamentos.
Se espreguiçava ao despertar, como faziam os cães e os gatos; mimeticamente. O Lago Paranoá, esta maravilha artificial que margeia toda a cidade, tem as águas verde-musgo em alguns pontos onde a balneabilidade é proibida, justamente no ponto onde a mãe de Uóshto, e outros renegados, estendeu a lona negra que é o seu abrigo. Fétida casa, úmida e sombreada pelo umbral da ponte.
Nunca tinha o que comer amanhecendo, ritualisticamente ele punha as mãos em concha e bebia um trago das águas verdes da parte poluída do lago. Cria que o verde era devido ao alto teor nutritivo da água. Conselho da mãe: "Tome uma caneca dessa água todas as manhã, aí tem vitamina, meu filho. Isto é merda de ministro, de deputado, médico e adevogado. Esse verde aí é muita rúcula, alface, brócolis, aspargos, toda a sorte de verdura e leguminosa que possa existir. Nunca se viu uma água tão nutritiva como esta".
De facto Uoshto tinha uma barriga gorda, efeito da água, não se sabe se benéfico ou maléfico. Certo dia, um garotinho de quinze anos tomou muito whisky e cheirou cocaína a noite toda, pegou a lancha do pai e foi dar cavalos-de-pau na água. Desgovernou-se e entrou facilmente na casa de lona preta.
Washington tinha visto a festa da posse do presidente pela manhã e passou o dia inteiro ocupado com isso, o presidente havia sido gente como ele, quiçá tomou água nutrida como ele, por isso suportou. Nesta noite Washington sonhava que presidia uma cidade repleta de pirâmides, era assim como o rei Pacal, dos Maias. Amante das artes e das nobres edificações...
A lancha esmagou mãe, filho e filha. Em algum lugar está Washington em sonho, talvez embalado pela mística de Pacal em piramidais digressões estelares. Porque todo en la vida es sueño.




Lelê Teles

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

seus olhos garços

a belíssima paula lagrotta, je suis enchanté...

Tem uma coisa magnética nos seus olhos garços que não cabem nos meus versos, porque imantam tudo ao seu redor, como um buraco negro que se alimenta de universo; tem uma flor imarcescível que desabrocha quando você abaixa o seu olhar tímido, uma lâmina lânguida que dá vontade de lambê-la; uma lírica líquida.


Tem uma coisa aí que tenho medo de saber o que é realmente, temo decifrá-los e eles me devorarem.


Dá pra sentir o cheiro fragrante dos seus olhos como a gota de um suor que escorre dos lacrimais... tem uma coisa nesses olhos que é demais!


Lelê Teles, Brasília



sexta-feira, 14 de novembro de 2008

cidadãos do mundo

Ainda na legenda: Pierre Weil, Lelê Teles, Caretinha, Gilmar, Geovane, Tarsila, Marck Sacco, Pajman, Gustavo, Moranguinho, 3 Estrelinhas, Jonisval, Andréia, Vanessa, Sergie, André, Dr. Fahad...
Turma formada por jovens anarquistas e religiosos ligados á fé Baha'i, à Rosa Cruz, Brama Kumaris etc. Esse era o nosso sonho de mudar o mundo, por meio da paz!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Morre Pierre Weill






A ave holística: Ave, Pierre, Evoé.

Voa, vovô, voa
Vai, Pierre, Weill
Singra no ar com tuas asas alvas
adeja no mar como uma pomba náufraga

arrebenta sereno na beira do cais.

Pra sempre a lembrança:
A maturidade encanecida nos cabelos comprova
A vivacidade e a candura de um belo rapaz
Na maternidade estelar renasce como uma supernova
Vá Pierre,
em paz!

Lelê Teles, Brasília
Fundador da Universidade Internacional da Paz (Unipaz), o psicólogo e educador francês Pierre Weil, 84 anos, morreu na noite de 10 de Outubro em Brasília. Em 1994 eu estudei na Universidade Holística Internacional (Unipaz), e como foi delicioso, como foi prazeroso aprender com esse grande mestre.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

quarta-feira, 21 de maio de 2008

lindas

lenas


ela enche meu coração de sonhos, de beijos e de desejos; preenche minha alma, afaga meu ego, afoga empáfias, refuga 'a refregas, refrigera-me a infância que me aflora agora.

temos giulita, uma joaninha sapeca, lépida e inteligente. amiga-nos, ama-nos, une-nos; ludicamente. temos como que um coração que se reparte em três, mas que não se divide. temos tantos momentos felizes juntos. tantos sorrisos, tantas ternuras. tantros... tantras...

e temos, ainda, uma vida inteira pela frente.


lelê teles, brasília

ecofagia ou eco-lógica

eu e ela
QUEREM A FLORESTA VIRGEM
OUTROS A QUEREM DEFLORAR
AFLORAM ANTÍPODAS DIRETRIZES
REFLORESTAR, DESENVOLVER OU DESFLORESTAR

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QUANDO FALAM EM MEIO AMBIENTE
COGITA-SE FAUNA, FLORA E PURO AR
A QUESTÃO É QUE NO MEU AMBIENTE
HÁ MUITA GENTE E BARRIGAS A ALIMENTAR

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NÃO QUERO UM JARDIM ANTROPOLÓGICO
COM SILVÍCOLAS NA IDADE DA PEDRA
NÃO QUERO ESSE MUSEU VIVO, ETERNO E ILÓGICO
DE QUE A NOVA ERA É A ERA QUE JÁ ERA

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O QUE EU QUERO É
QUE HOMENS PLANTAS E ANIMAIS
ÁGUAS, PLÂNCTONS E CORAIS
VIVAM CONTÍGUOS E FAGOCITÓSICOS
CONVIVAM CONTIGO E COM OS DEMAIS


Lelê Teles

seu estrelo e o fuá de terreiro


os maravilhosos músicos-bailarinos do Seu Estrelo e o Fuá de Terreiro


sim, nós temos um mito.



eu vi nascer um calango na cabeça do amigo. diferente de todos os calangos do cerrado, esse nosso pequeno dinossauro era um pterodáctilo empoeirado, um pégasus que rasteja, o mítico Calango Alado. e toda uma fauna exótica nascia com ele: elefante, gavião, caliandra, Sinhá, Biu, Cantadô, Pescadô... e cada minina bunita, cada pé de fulô.


o folguedo se assanha a gritos, batuqes e apitos. a gente se assenta ao rito, à roda, ritmo e riso; e o troço mais bonito é o desenrolar deste mito. o povo se refestela, a fauna se gravanha, o coração da gente martela, a alma da gente se banha.


Agradeço mil vezes a Tico, demiurgo criador encantado, que tem a alma suja de mangue e tem no sangue a poeira líquida do cerrado.



Lelê Teles, Brasília


segunda-feira, 31 de março de 2008

Gorete e a ressurreição


as duas irmãs estão à frente, tensas e chorosas. logo em seguida, Jesus Cristo.


em segundo plano a turba curiosa, estupefata. à frente, com passos lentos, vai surgindo o moribundo agora vivo. Assim que transpõe o umbral da cova, a figura de Lázaro vai sendo preenchida pela luz quente das áridas paragens da Judéia. a turba recua um pouco, boquiaberta e assustada. Marta e Maria avançam lentamente para próximo do irmão.



Jesus permanece imóvel, impávido, incólume. Lázaro, então, rompe o silêncio: mas o que significa isso?, fala, olhando para as ataduras cheias de chagas que envolvia o seu corpo outrora moribundo. quem fez isso comigo?, pergunta, enfático e furioso.



os curiosos ficaram ainda mais assustados, recuando um pouco, chocados.


não seria fácil pra nós vivermos sem ti, Lázaro! disse Maria, sua irmã, enquanto Marta a afagava. Lázaro, colérico: então foi pra satisfazer vocês que me trouxeram de volta? quer dizer que enquanto vocês viverem eu terei que, uma vez morrendo, ressuscitar para fazê-las feliz, até que as duas morram?!

Jesus, então, resolve falar: Lázaro, Deus é contigo. felizes estão as tuas irmãs, e cheio de júbilo está o povo que presenciou mais uma das graças do Pai.



Lázaro, então, num ataque de fúria, se lança para cima do Mestre da Galiléia. por quê você fez isso comigo, cara? por quê me trouxe de volta?! e Lázaro olhava no fundo dos olhos-pélagos do Deus em carne. furioso: Você sabia onde eu estava; o que mais me indigna é que Você sabia onde eu estava! se Você teve o poder de me trazer de volta, Você poderia ter me perguntado se eu desejava voltar. Mas não. Você quis satisfazer a vontade de minhas irmãs e seguir na Sua campanha, no Seu proselitismo profético, às custas do meu amargo retorno. eu quero que Você me mande de volta, agora!


a turba urra de curiosidade, uns olhando para os outros, todos interrogativos. Lázaro volta para a tumba de onde saíra - sinistro ato -, e de lá grita: Jesus... não quero que ninguém entre aqui, nem Você e nem minhas irmãs, até que Você me mande de volta para o lugar de onde me tirou, sem pedir a minha permissão. as irmãs choram convulsivamente. Jesus coça a cabeça... cai o pano.


porra, Fabão. mas isso é muito forte. qual é o sentido de se encenar isso, cara? Gorete, tá afim ou não de dirigir a peça? não sei Fabão, lê de novo, tô confusa.


estávamos, eu e Gorete, num ritual nayambing, na chácara de uns amigos rastafaris, da Guiana Inglesa, ouvindo a deliciosa música gospel dos rastas, e o retumbar dos tambores sincopados. era lua cheia, e eu realmente gosto de estar com esses caras, é uma religião deliciosa e interessante a deles, e eles são puros e verdadeiros, isso me encanta, a mim e à Gorete.


numa pausa pra comer, eu lia pra Gorete uma peça que escrevi sobre Lázaro e gostaria que ela dirigisse. Gorete me disse que tinha white widow e ia acender um só pra ver se eu conseguiria convencê-la a dirigir a peça. como os tambores do nayambing, o white widow é irrecusável.


eu disse a ela, enquanto fumávamos, banhados pela lua e ao som longínquo dos tambores: Gorete, a ressurreição de Lázaro é uma contradição à pregação do mestre. como assim, Fabão?


Gorete, lembra que em Atos dos Apóstolos 3:1-10, Pedro e João encontram um coxo à porta do Templo, a esmolar? "não temos ouro nem prata, mas o que temos lhe damos, e fez o coxo andar normalmente", completou Gorete. e nós Gorete, não chegamos a conclusão no dia em que lemos isso juntos que não fazia sentido com a doutrina do Cristo? de facto, Fabão, chagamos a conclusão que o Mestre não curou ninguém que não tenha buscado a cura, a fé é que curava as pessoas, segundo a doutrina do Cristo; Pedro foi arrogante em seu proselitismo, fez o que nem o mestre teve o despudor de fazer. isso mesmo, Gorete, o homem pediu esmola e não que lhe retificassem as pernas; Pedro não podia se arvorar como mágico; a cura milagrosa e a fé caminham juntas.


no entanto, querida, em Lázaro, vemos uma única vez Jesus intervir por alguém que não clamou por ele. porra, Fabão, é isso! e Jesus, quando foi ressuscitado por Deus, ficou entre os vivos poucos dias, só até dar as últimas instruções aos discípulos, depois foi para as tais outras moradas, onde vive Jacó e Elias, que também não morreram, foram arrebatados para o "céu". por que diabos ele fez Lázaro viver de novo num lugar cheio de cegos, coxos, entrevados, mancos, prostitutas e sanguinários legionários romanos? o cara tava no paraíso! né não, Gorete?! e quer saber mais, querida, os egípcios também criam em ressurreição, por isso se enterravam com seus súditos e familiares, envoltos a todas as jóias que tinham. criam que, não importam para onde fossem, voltar pra cá seria sempre melhor. o Mulçumano que se explode por aí, crê no além, lá ele sabe como é, tem Alá e muitas mulheres virgens esperando-o para amar lascivamente. o cristão não sabe o que é o paraíso e talvez por isso não creia nele com tanto fervor. lembre de Peter Tosh: todo cristão quer ir pro céu, mas nenhum quer morrer! minha vó, Gorete, agonizava no leito de morte, já velha, sem andar, sem sentir o sabor das coisas e tendo que ser lavada por outras pessoas, assim mesmo ela se apegava ao terço e pedia a Deus que não a mandasse para o paraíso, ela queira continuar viva, mesmo que em condições degradantes; eu cheguei à conclusão que minha vó não cria com fervor que havia uma outra vida e um outro lugar.


os cristãos, Gorete, não contestam a ressurreição de Lázaro porque no fundo não crêem que Lázaro pudesse estar em um reino de bonança e paz, eles acham lindo a ressurreição de Lázaro, acham normal que Cristo tenha trazido alguém da "outra morada" para reviver no deserto da Judéia. ora, se Lázaro vivia aqui e morreu, logo ele vivia em outro lugar; elementar. ao voltar pra cá ressuscitado, teve que morrer no outro lugar onde vivia. a ressurreição é, por tanto, além da volta à vida, uma segunda morte!


e a onda do white widow bateu. ouvíamos o som longínquo dos tambores, de boca aberta e quase babando. e não dissemos mais uma única palavra. A lua também nada disse.




Lelê Teles, Brasília.

sábado, 29 de março de 2008

quinta-feira, 27 de março de 2008

terça-feira, 18 de março de 2008

as ninfas e o sátiro

Nymphs and Satyr - William Adolphe Bouguereau

sexta-feira, 14 de março de 2008

terça-feira, 4 de março de 2008

segunda-feira, 3 de março de 2008

a quem servem os motoboys?


Ana Male, quer tudo na mão

Ela se chama Ana Male, nome de ariz pornô. Ela detesta que lhe lembrem disso, toda hora eu digo isso pra ela. Não só o nome dela é um palíndromo, ela é toda palindrômica. Tem várias conversas atravessadas, você não sabe se está indo ou se está voltando. Outro dia, no trânsito, ela reclamava do excesso de motoboys e da imprudência deles. Você detesta eles né, Ana; perguntei. Ela começou a falar sem parar, disse que eles eram mal educados, mal instruídos, selvagens e que a maioria deles nem tinha habilitação. Sabe como é, quando uma mulher começa a falar sem parar e acende o cigarro, que ainda nem terminou, no outro é melhor ficar calado. Esse é o início da histeria. Deixei Ana falar. Tudo o que ela dizia era puro preconceito. Eu aumentei o som, tocava um delicioso hardcore do Rattus, da Finlândia. Chegamos à casa de Ana Male, 10:11 da noite.

Ana Male acabara de iniciar um curso de dança do ventre, embora fosse uma estadunidense apaixonada por hardcore feito na escandinávia, como eu. Eu tava louco para vê-la dançar. Colocamos alguma coisa no narguilé e ficamos baforando. Ela voltou da cozinha e disse que ia pedir uma pizza, perguntou se eu preferia pizza ou comida chinesa. Eu disse que não queria nada que fosse entregue por um motoboy estressado. Ela ficou parada sob o umbral da porta, me olhando. Como ela ficou muito desajeitada, começou a sorrir e fez que não era com ela. Depois insistiu: Cara, tem uma pizzaria aqui que faz a melhor pizza da cidade e sabe qual é o melhor? Se eles não chegarem aqui em trinta minutos após o pedido a gente não precisa pagar! Ligou e pediu a pizza, nem lembro o sabor.

Nossa, Ana, você é sádica hein? Você está sorrindo dessa bobagem que acabou de me falar? Ela ficou muda. Senta aqui, Ana. Ela sentou e baforou o skunk. Ana, em São Paulo morrem 2 motoboys por dia; em Goânia, um a cada 36 horas... e fui listando; quando não morrem, esses caras são vítimas de ocorrências no trânsito, que normalmente acarretam problemas como hemorragias internas, ossos quebrados e, em alguns casos, perda de membros como braços ou pernas. Eles correm, Ana, não porque sejam loucos e mal educados, eles correm porque pessoas como você têm pressa!




Ela se levantou. Eu continuei: Ana, nenhuma pizzaria vai te dar uma pizza de graça... A daqui da quadra dá, cara, como eu te falei. Ana, a pizza não sai de graça. Se o motoboy não chegar em 30 minutos na sua casa, onde você está confortavelmente sentada e fumando skunk, quem paga a pizza é ele.





Ela me olhou com dois olhos enormes. O motoboy, Ana, tem que vir muito rápido pra entregar sua pizza a tempo. Ele tem três alternativas: ou entrega a sua pizza em 30 minutos, ou paga com o salário dele ou com a vida! Para isso ele fura sinal, corre pela calçada onde caminham os velhinhos e as crianças, corta os canteiros, não respeita a faixa de pedestre... Não é o motoboy que cria uma situação de caos no trânsito, Ana, é você!




Ela ficou imóvel por alguns segundos. Depois pegou o telefone, ligou e cancelou a pizza. Pegou as chaves, me pegou pela mão e descemos o elevador sem falar nada um com o outro. Ela dirigiu até a pizzaria, foi ao caixa e pediu a pizza. Enquanto esperava ela foi conversar com um motoboy que aguardava do lado de fora, pronto pra fazer entrega. Demorou um pouco, fazia perguntas e meneava a cabeça afirmativamente. Depois ela veio, me deu um beijo na boca, me olhou nos olhos e me agradeceu, envergonhada. Pegamos a pizza, compramos um vinho e nunca mais falamos nisso!


Lelê Teles, Brasília.