terça-feira, 28 de agosto de 2012

quem sabe...



Quem sabe lá do outro lado, numa margem igualmente rochosa, não estará alguém a mirar a imensidão do oceano e,

quem sabe,

nesse mesmo instante não estão a se cruzar os seus olhares tântricos, úmidos, hídricos, marejados, netúnicos...

Quem sabe se essas mesmas ondas que vão e vêm

também não migram os pensamentos de ambos, como um correio elegante náufrago a transmigrar quereres, quimeras, alquímicas formas de desejos de trevas.

E por falar em desejo, quem sabe se,

em um lampejo,

oh, carne fraca,

não suba uma crista de onda em ressaca e lhe exploda na boca

como um beijo.

Lelê Teles

terça-feira, 24 de abril de 2012

Igreja Deu, é Amor




 
TO PROCURANDO ADEPTOS PARA A MINHA NOVA CONGREGAÇÃO.
E PRECISAMOS DE DOAÇÃO PARA ABRIR A NOSSA IGREJA.

VOCÊS SABEM, TEMPLO É DINHEIRO.

A nossa oração foi recebida em sonhos pelo apóstolo Max Müller e deve ser feita em jejum, ao pôr do sol e ao despertar da aurora.

Na nossa igreja, os homens oram em pé e as mulheres de joelhos, uns na frente dos outros.

Há também as mulheres que oram deitadas, umas em cima das outras.

Há os homens que ora ajoelham, ora ficam em pé, uns diante dos outros.

A qualquer hora.

É assim que recebemos e damos a hóstia sagrada.

O único livro do Antigo Testamento que usamos em nossos cultos é o Cântico dos Cânticos.

A nossa sagrada imagem é desconhecida ainda pelo grande público. Há um Cristo nu, com os braços abertos, em uma cruz. Embaixo, de joelhos, Maria Madalena, nossa Déia, olhando pra cima, com as mãos cheias de azeite, erguendo-as ao ar. O Cristo está vivo e com a alma querendo sair do corpo.

eis a oração:

PROFANORAÇÃO

Ave, Lilith, cheia de vida!
O Viver é contigo!
Malícia és tu entre as mulheres
E delícia é o fruto do teu ventre,
Prazer.

Santa Vadia, Mãe de Ateus,
Vem cá, sobre nós (pecadores?),
Agora e na hora de nosso gozo.

Ah! Vem!


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

a vegetariana e a planta carnívora




Dandara é uma mulher moderna. Desde pequena, por influência da mãe, se esforçou muito nos estudos; sempre teve uma meta, um foco, um objetivo. Mesmo quando o assunto de muitas das suas coleguinhas era somente o trivial. Por não gostar muito de trivialidades é que Dandara foi ficando cada vez mais seletiva com as amizades.

 
No ensino médio, suas amigas eram iguais a ela, o que ratifica a teoria sociológica do semelhante que atrai o semelhante. Quando conversavam com outras garotas, sempre estavam a afirmar que elas eram escravas da cultura e do machismo, e que um mundo novo era possível, bastava que elas tivessem mais autonomia e respeito. Os homens eram vistos como misóginos. Os professores como profanadores da moral, uma vez que se insinuavam para as meninas jovens, aproveitando-se da condição privilegiada que mexia com a imaginação das moças. Os professores eram sempre vistos como inescrupulosos. Vez por outra, Dandara se mostrava irascível e gritava com quem estivesse em sua frente.
 
Foi ainda no colégio que nos conhecemos. Eu estudava para fazer jornalismo, e ela para ser funcionária pública. Disse-me que escolheria o curso quando estivesse próximo ao vestibular, o que ela queria era um canudo para prestar concursos para a carreira pública. Quanto a isso não discutíamos, mas discutíamos quanto a todo o resto.
 
Dandara entrou para a universidade no mesmo semestre que eu, ela estudou Relações Internacionais. Seis anos depois ingressara na carreira diplomática. Hoje Dandara é uma mulher bem sucedida, acreditou em um sonho, lutou por ele e teve êxito. Dandara obteve as conquistas materiais que almejou, mas tem um problema. Ela descobriu que isso não é tudo. Ela tem 40 anos, não tem filhos, não tem marido e nem marida, como muitas mulheres de sua geração. O que Dandara tem é um grande problema psicológico.
 
Desde jovem que a vejo pregar contra o papel de mãe, a subserviência ao marido, a jornada humilhante de dona de casa... Eu sempre dizia a ela que queria me casar com uma mineira que soubesse cozinhar melhor que minha mãe. Dandara via isso apenas como deboche, mas ela via em mim um machistazinho escravo da cultura. Dandara, com essa paranóia feminista, descobriu o Yoga, o incenso, a Índia, o Osho e o Krishnamurti. Conheceu também, por meio da Nova Era, que no mundo existiam divindades femininas, deusas. E tudo isso caiu como uma luva pra ela.  


Dandara passou a conviver com amigos esquálidos e fleumáticos. Tomava clorofila, comia pão integral e cheirava incenso noite e dia. Enfiava pequenas agulhas no corpo, meditava, jejuava e cantava mantras. Em pouco tempo sendo bombardeada pelo proselitismo iogui, Dandara resolveu abrir uma pousada em Alto Paraíso. Depois criou uma ONG e abriu um instituto de permacultura. E foi crescendo e se tornando uma profissional, uma empresária de sucesso no ramo. Agora ela toca um restaurante de comida macrobiótica em Brasília, além da pousada em Alto. Virou diplomata da vida macrobiótica, defensora das árvores e dos animais.
 
Um dia, ela me ligou para batermos um papo. Fui até a sua casa e lhe levei uma planta de presente em um vaso, era uma Dionéia. Eu disse a ela que era uma planta com a qual ela aprenderia muito. Falei como mantê-la e a coloquei em um local onde ela teria luz e humidade. Falamos um pouco sobre a vida, eu falei da minha felicidade de ser pai. Falei que minha mulher era feliz com a sua condição de dona de casa e mãe etc. Dandara apenas ouvia. Falou-me sobre as divindades femininas, sobre a perseguição às bruxas e falou também das mulheres afegãs. Reiterou a sua abominação às burcas e pregou que um dia as mulheres do oriente seriam livres tais quais as do ocidente.
 
Mas se as mulheres do ocidente fossem realmente livres não existiriam pessoas como você pregando contra o machismo aprisionador, Dandara. Ou são livres as mulheres no ocidente e somente vocês feministas é que se aprisionam? Dandara, como sempre, ficava apenas me olhando. Esperando eu terminar o meu raciocínio. Eu continuei: Dandara, minha flor, a burca e o tubinho são imposições masculinas. E as religiões monoteístas, com seu Deus no masculino e seus profetas homens, é que criaram essa nossa forma de se vestir, aqui e alhures; concluí.
 
Dandara concordava, ela lembrou que quando os cristãos chegaram aqui as moças andavam nuas e nenhum homem as atacava para estuprá-las. Os cristãos trouxeram as roupas para cobrir as "vergonhas", trouxeram o pecado, o desejo e o estupro. Depois foram despindo vagarosamente as mulheres, até o seminu que se vê hoje. Impedir, Dandara, que uma mulher vá à escola usando uma túnica, como o fazem os franceses, é simplesmente não reconhecer que somos vestidos e despidos pela cultura, e portanto, também pela religião. As moças francesas não usam túnicas, mas vão à escola vestidas como cristãs.

 
Depois de muita conversa mole, Dandara me disse que estava aprendendo a tocar Didgeridoo, um instrumento de sopro (aerofônico) criado pelos aborígenes australianos há pelo menos 1.500 anos. Me mostrou a engenhoca, eu dei de ombros, dei-lhe três beijinhos e fui embora. . . . Lá em baixo, do estacionamento, dava pra ouvir Dandara treinando a respiração para tocar com maestria o Didgeridoo. Este instrumento exige um grau de concentração muito alto e muito treinamento. A respiração circular é o ponto mais difícil de ser atingido. Essa respiração constante faz o tocador entrar em transe, o fluxo de oxigênio no cérebro provoca alucinações. 

Depois de quase uma hora inteira tocando o instrumento, Dandara sentou-se no sofá. A visão estava um pouco turva, ela delirava. Olhou fixamente para a Dionéia. Uma mosca pequena passa voando próximo à planta, a Dionéia a seduz com sua forma vúlvica, a mosca é atraída para dentro das folhas da planta. Dandara leva um susto incrível que quase a tira do transe. A Dionéia fala com ela, com voz de planta e na linguagem floral: "oi, eu sou uma planta carnívora". E eu sou uma mulher vegetariana, respondeu Dandara, sonolenta. "Bonito, vejo que tens muitas plantas em casa e que as cultiva com carinho. No entanto, você as matará para matar a sua fome", falou a planta em clorofílicos pensamentos. São hidropônicas, disse Dandara. Gosto de ter a casa cheia de plantas, é minha horta de apartamento. Eu mesma cultivo, é mais saudável.
 
A Dionéia fala novamente, inquiridora: "e por que não comes animais, como eu faço?" Porque não preciso tirar uma vida para me alimentar, dona plantinha. "Mas você tira a vida das plantas, tirando a vida das plantas você tira o alimento de outros seres, o que provoca mais mortes. E esse aquário que tens aí na sala? Praquê aprisionar os peixinhos? Moça, é a sua religião que a impede de comer animais ou é a religião dos animais?" O quê? "Perguntei se você não come animais por causa da religião". Não dona planta, quer dizer, não sei. As religiões do mundo, quase todas se alimentaram de sacrifícios de animais para servir aos seus deuses. Eu é que não como carne por princípio. 


A Dionéia simulava um farfalhar de folhas, mas as folhas duras somente meneavam lentas, ela prosegue: "sim, muito bonito, muito bem, mas eu quero saber qual é esse princípio, dona moça?" Não sei dona planta, eu amo o reino vegetal, as plantas são irracionais e incapazes de fazer mal a qualquer pessoa. Os animais, idem. Mas as plantas existem para saciar a nossa fome. "Pois eu penso o mesmo sobre o reino animal, minha senhora. E acho que a senhora deveria aprender algumas coisas com o reino animal, como a constituição de famílias, o instinto gregário, o papel dos gêneros etc. E digo mais, é com o mesmo despudor com que a senhora come vegetais que nós carnívoras comemos pequenos animais vertebrados e insetos. E digo mais, minha querida, se a senhora fosse um pouco menor, ou eu fosse um pouco maior, eu não hesitaria em comê-la. 

Alguém tocou a campainha. Dandara despertou do transe. Arrancou a planta furiosamente do vaso e, em um ato insano, a atirou pela janela do apartamento. Abriu a porta bruscamente e era o rapaz da água, todo solícito: bom dia, a senhora pediu água mineral? E Dandra respondeu ríspida e secamente: e alguém já te pediu água vegetal ou água animal? Seu animal!

poema para os pássaros e para os peixes



O Pássaro não sabe se voa ou se nada; o pássaro não sabe de nada. 

Os peixes não distinguem se voam ou se nadam. 

Analisando friamente os movimentos são os mesmos, o uso de asas-nadadeiras, o aproveitamento de correntes (de ar e de água) e a limitação ao pélago. 

Estes seres pelágicos, que flutuam no corpo da água ou no corpo do ar simplesmente se movem, ou melhor, o movimento é que se movimenta neles, como quis Pessoa. 

O avião e o submarino, ave-peixe artificial, também não tem consciência se voa ou se nada. Mas é certo que quando choram, os peixes choram lágrimas transparentes. 

Morcego não é pássaro, baleia não é peixe, golfinho não é peixe. É certo que uma ave-maria, um ave-césar não passarão. A diferença do aquário para a gaiola evidentemente é a água. Engaiolados, os pássaros cantam uma música triste. Aquariados, os peixes choram.



Quando a gente acende a luz, pra onde vai a escuridão?

Um mito, Gorete!



Gorete gostava de caminhar pelas margens do Lago Paranoá e respirar o aflato árido de cerrado, admirando o espetáculo de cores que se forma no céu de Brasília em tempos de seca. No horizonte, ao pôr do Sol, o lusco-fusco cria gradações singulares. Há muitos mirantes
em Brasília utilizados para apreciar os pores de Sol, Gorete preferia as margens do Paranoá.

Fábio, o amigo-confidente de Gorete, também preferia as margens do lago, mas gostava dos cais, onde sentava em lótus e meditava. No esmaecer das cores, no escurecer do céu, na chegada da noite, eles se punham a conversar. Gorete é religiosa, tem fé e dúvidas ao mesmo tempo, em verdade a dúvida, paradoxalmente, é que fortalece a fé de Gorete. Como Fábio é cético e só tem fé na ciência, as discussões entre os dois são sempre boas para fortalecer a fé de ambos, embora por caminhos diferentes.

Com a chegada da noite, outro espetáculo de cores se apresenta na capital. Desta vez são as luzes da cidade que vão se ascendendo, colorindo as águas do lago e pontilhando iluminados matizes por casas, ruas, avenidas, praças, parques, monumentos, prédios públicos, edifícios comerciais, shoppings e apartamentos. A partir do mês de dezembro, a cidade se veste ainda mais de luzes para o natal e o reveillon. Brasília realmente fica linda nessa época do ano. Gorete e Fábio se conheceram por acaso na beira do lago. Gorete esqueceu o celular no cais, quando ligou pra ver se alguém o tinha encontrado ouviu a voz de Fábio do outro lado. Alô. Alô, eu sou a dona desse celular, disse ela. Quase você o perdeu, respondeu Fábio, solícito. Combinaram de se encontrar no cais, era início de noite. Gorete já estava em casa, pegou o táxi e foi.



Como havia outras pessoas no cais, Gorete resolveu perguntar quem era Fábio, acertou na primeira pessoa questionada. Sorriram, trocaram o cordial beijinho e Fábio esticou o celular para ela. Fábio fala amistosamente, com um sorriso alegre:

- Sabe que temos um amigo em comum?

- Ah, é? E como você sabe disso?

- A primeira vez que o seu telefone tocou era o Hermano, reconheci a voz dele e ele a minha. Você nem imagina o susto que ele levou.

- Nossa! Como esse mundo é pequeno. De onde vocês se conhecem?

- Da universidade, estudamos antropologia juntos. Quando seu celular tocou, aliás, quando ele vibrou eu levei o maior susto, a madeira começou a tremer e a fazer um barulho esquisito, quando olhei o telefone estava pra cair dentro do lago, ele foi caminhando devagarinho e já tava pra cair nesse buraquinho quando eu o resgatei.

- Puta madre, que sorte! Devo agradecê-lo duas vezes então. Dali saíram para um chopinho que se converteu em uma amizade que se arrastaria ad infinitum. Na mesa do barzinho, trocaram as primeiras impressões. Gorete falava muito e gesticulava enquanto falava. Fábio sorria, ponderava e ouvia. Em pouco tempo a conversa já estava atravessada. Gorete proferia sua fé religiosa e Fábio a contestava professando sua fé pela ciência.

- Puxa, nem sei por que a gente começou a falar disso, Fábio. Vamos mudar de assunto. - Falar disso o quê? - De religião. Já me disseram que discutir religião e política em mesa de bar é uma roubada. - Pra mim não é, Gorete. Só pra quem não sabe relativizar e contemporizar as idéias alheias. Eu não vou a bares falar de bobagens, saio com os amigos pra trocar idéias, não pra conversar tolices.

- Ainda bem. Mas por que mesmo a gente enveredou por esse assunto? - Por causa do álcool, Gorete. Todas as sociedades humanas se utilizam do artifício do uso de psicotrópicos, alucinógenos ou rituais de transe para se atingir a transcendência. A iluminação é sempre uma fuga do espaço cotidiano. Nosso aparato cognitivo necessita de um pequeno desligar do mundo tangível para absorver a possibilidade de transcendência. Às vezes, sob efeito de qualquer psicotrópico, nós ativamos esse recurso primitivo e nos pomos a cogitar sobre a religiosidade.

Gorete mexia nos cabelos, agitava os ombros e se fixava cada vez mais nos olhos de Fábio. Gorete nunca havia pensado o quão era bom estar com alguém que pensava diferente dela. E ao mesmo tempo respeitava as suas idéias e convicções.

- Você acredita no acaso, Fábio? Pergunta Gorete, inclinando o corpo para frente e falando um pouco mais baixo.

- O acaso não existe, Gorete. Fábio responde baixinho.
- Amigos, não, amigo.

- Tá, pega a tua agenda aí, Gorete.

Gorete pega o celular. Fábio pede pra ela ler os nomes das pessoas que estão na lista dela. Gorete vai falando, a partir da letra A. Adriana, Alice, André Pataxó...

Fábio a interrompe:

- Pataxó, não é antropólogo também?

- Acho que é, ele é amigo de uma amiga minha, na verdade.

- Que amiga?

- Luísa Gunther.

- Ela é uma artista alemã, criadora de pangrafismos, esposa do Wesley, um gordito de barba, literato...

- Na verdade ela é teuto-brasileira. Puxa, cara, tô de cara.

- Nós nos aproximamos por afinidade, Gorete, e não por acaso.

- Mas nem temos tanta afinidade assim, cara. Eu sou religiosa e você incréu. Fábio faz sinal de cruz com a mão:

- Credo, Gorete. Que palavra horrenda, parece nome de enfermidade.

- Não deixa de ser.

Fábio dá uma gargalhada.

- Ta bom, Gorete. Voltemos. Estávamos falando em afinidades. Quem você acha que estaria nesse cais, ao pôr do Sol? Se voltarmos lá amanhã, no mesmo horário, vamos encontrar alguém que nos conhece pelo menos de vista, de algum show, ou um vernissage, ou temos alguém em comum que conhecemos etc. Não tem nada de acaso nisso.
- Não sei não, hein. Meus pais, por exemplo, se conheceram num trem em Paris. Ele é brasileiro e ela é peruana. Isso é um exemplo do acaso agindo! - Tá, façamos como o Jackie Estripador, vamos por partes. Eles são dois estrangeiros num trem em Paris, certo?

- Certo.

– Gorete abre um meio sorriso, encantada com a facilidade de polemizar e de convencer que Fábio parece ter, ela não tira os olhos dos olhos dele.

- Seu pai fazia o quê nesse trem?

- Ué, viajava.

- Não, Gorete, viajava pra onde, ia fazer o quê em que lugar?

- Ah, ele ia para uma conferência de arquitetura numa universidade.

- E sua mãe?

- Ela dava aula nessa universidade.

- E o quê que há de acaso nisso? Dois estrangeiros que iam para o mesmo lugar, tomaram o mesmo trem. Mas cedo ou mais tarde eles iam acabar se encontrando. E como começaram a conversar?

- Papai usava casaco peruano , ela perguntou se ele havia comprado no Peru, aí começaram a conversar e viram que conheciam uma pessoa em comum lá no Peru.

- Tá vendo, a sua teoria do acaso acaba de cair por terra.

- Ufa, você é implacável, hein?

De fato, nessa noite algumas pessoas passaram pela mesa do bar e cumprimentavam um e outro, muitas cumprimentavam os dois ou se surpreendiam com o fato de os dois se conheceram, e como estavam no Beirute, um bar tradicional da cidade, freqüentado por artistas e intelectuais, ali tudo funciona como uma rede, quem não se conhece pessoalmente, conhece-se de vista e tem amigos em comum. Os dois perceberam que mais cedo ou mais tarde eles iam acabar se encontrando. Então, tudo passou a ficar cada vez mais descontraído, trocaram cigarros, sorriam muito e Gorete não parava de olhar nos olhos de Fábio.

- Em que você trabalha, Gorete?

- Estudo medicina.

- E qual será sua especialidade?

- Ah, quero trabalhar com homeopatia. Com iridologia, mais precisamente. - Então é por isso que você olha fixamente nos meus olhos, ta vendo se eu tenho problema de baço, de bexiga, de estômago...

Os dois caíam na gargalhada. Gorete ficou envergonhada de ele ter percebido que ela o olhava fixamente. Depois do chiste a coisa se dissipou, Hermano apareceu, bebeu um pouco, conversou e levou Gorete pra casa. Os dois trocaram telefone a sair com muita freqüência.

Desde então, religião e ciência pautava toda sorte de assunto em torno dos dois. Sempre no limite do respeito pela opinião do outro. Numa dessas noites, próxima ao natal, Gorete confidenciou que sentia uma certa mágoa do pai, desde a pré-adolescência, por ele não decorar a casa deles com luzes natalinas como todo mundo fazia.

- Era horrível, Fábio. O prédio todo iluminado. Todos os apartamentos decorados, as lojas, a cidade, tudo, menos a minha casa. Acho que a maioria dos filhos sofre por ter pais intelectuais, sabia?

Fábio ficou em silêncio.

Uma lua alaranjada saía de dentro do lago. Eles tomavam vinho, sentados lado a lado e aqueciam as mãos um do outro. Gorete queria falar sobre o seu trauma de não ter noites encantadas de natal como todo mundo tinha.

- Quê que você acha do natal, Fábio? Não to falando de Papai Noel, de guloseimas e presentes, essas coisas. Estou falando dessa data da cristandade, da comunhão em torno da história de Cristo. Você não acha que Cristo é uma invenção supersticiosa pra enganar os trouxas, como diz meu pai, né Fábio? Fábio respirou fundo e disse: - Você quer saber mesmo a minha opinião, Gorete?

- Claro, eu tenho o maior respeito pela sua opinião, cara. Fábio senta de frente pra Gorete e de costas pro nascer da lua. Segura nas duas mãos da amiga, olha-a fixamente nos olhos e fala baixinho:

- Gorete, Jesus é um mito!

Lelê Teles
 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Lívida

japinha


Nus vendo

Começamos com uma relação espiritual. Tomávamaos chás, nadávamos nas etéreas águas transcendentes. Nutríamos.

Depois passamos às relações carnais. Ela bebia em mim o chá natural que frutifica. E eu nadava pelas águas profundas do seu ser etéreo. Nu tinhamos.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

estado de graça

japinhas


Em casa tudo se casa.

Na sala, uma lua branca e nua entrava pela janela, como uma borboleta que passa suave pelos jardins com o seu voo de ave.


Do quarto, ouvia-se o murmúrio infantil da chuva fresca, com aquele friozinho gostoso que penetra as frestas.

Do lado de fora, a noite madrugava lírica e inocente. E a mais adulta das inocências madrugava dentro da gente.

Como a lua e a chuva nas janelas eu entrava nela, com a pureza das aves, das borboletas, das chuvas e das luas, e com a adulta inocência das noites que madrugam.

A gente se deitava sobre o outro no sofá e ela tava tão linda com o corpo banhado de lua. Seus cabelos sorriam, seus olhos gozavam, sua boca beijava cada palavra que proferia (seus seios duros em taças) e seu rosto era a beleza em estado puro, em estado de graça!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Gérmen de trigo



Japinhas


Dormi a gosto, acordei Setembro. Na primeira manhã do mês da primavera, ela se espreguiçou na cama como uma flor que desabrocha. O pólen que perfuma o seu corpo-pétala lufava no espaço tênue do quarto. Ela me deu uma abraço cheio de beijos.

- Bom dia, flor!
- Bom dia, amor!

Ela sorriu com os olhos. Eu gargalhei com o coração. Fui à varanda e trouxe um cravo que tirei do vaso e o coloquei atrás de sua orelha. Ela meneou a cabeça com os olhinhos infantis e puros.


Molhou os lábios e me beijou com ternura. Lá fora, farfalhava as árvores ensolaradas de sabiás. Um nesga de sol se imiscuía no quarto, se esfregando na fresta da janela. O mar chuava ao pé da varanda.


Ela se levantou, escovou os dentes, escovou os cabelos, escavou as gavetas e encontrou uma carta que ela escrevera na noite anterior. As letras bem torneadas, desenhadas esculturalmente, como ela, diziam: "quando chegar Setembro quero fazer-me flor e borboleta. Quero-te abelhoso, casuloso, invólucro e envolvente. Quero-te amável e aderente. Quero-te árvore, quero-me semente. E queiramo-nos assim, pra sempre".


Ela fechou a carta e abriu um sorriso amigo. Eu abri os braços e lhe fechei um abraço abrigo. E sentamos pro café da manhã, polinizados de gérmen de trigo.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

lenabah

BBB: busto, buço e boca

quando sonhei dormi com lena e ela era um livro tatuado de significâncias, onde cada significante resignificava-se, continuamente. o livro onírico e perfumado que eu lia noite adentro, o livro-ela, abria-se em minha cama como uma dama que se esparrama quente. tudo o que lia nela, tesava.


cada página do livro-ela era uma pétala de roupa. deliciava-me a molhar as pontas dos dedos e desfolhá-la, pagina por página, peça por peça: a página brincos, a página vestida de vestido que eu despia, a página mínima da calcinha, a alcinha que ocultava o busto, a página pêra.


as tatuagens que vinham pelo caminho ainda não eram letras, eram signos imagéticos de cores rubras e quentes que ilustravam. As tatuagens letras ficavam na parte interna da página, porque esse é o único livro que tem a parte interna da página, que fica entre as duas faces da folha, à flor da pele. com olhar atento era possível ler a sua alma. as letras soletram sonhos.


começo lendo-a pela orelha do livro-ela. a ponta molhada da língua sussurra quentinho cada letra tatuada na orelha-livro, prefaciando. depois, mansamente, a morder as cores corpo do pescoço que meneia em brasa. aí, recitar, boca pra boca, língua pra língua, a estrofe beijo, poemando. a cada página uma surpresa, a cada linha lida uma linda descrição do corpo dela, e narrador e leitor se misturam fagocitósicos, os corpos em brilhos como brilham os corpos celestes, estelares.


eu tinha desejo de carne, ela desejava verdura. vegetariano, ia mordendo tudo o que nela frutivicava: a batata da perna, as maçãs do rosto, as mangas da blusa, aquela fruta hídrica que cresce na árvore que fica entre suas pernas... eu tinha desejo de carne, ela desejava verdura.



à medida que a noite avança, o quarto escura, a luz se tênua, e eu aproximo mais ainda o livro para lê-lo de perto. encosto o meu nariz no nariz do livro-ela, ofegamos juntos. a boca anseia beijo. vermelha, entreaberta e molhada. quando a língua entra ela fica hídrica. a leitura, no abrir de páginas, no abrir de pernas, no abrir de coxas, mescla poema erótico, conto profano, romance sórdido, diário de putas. as vírgulas das virilhas, a concha úmida em reticências e o ponto final do umbigo exclamam.


depois de lê-la intenso, eu viro a página. e fica tudo ainda mais lírico. as costas pacíficas e a cintura atlântica, a bunda índica. Um oceano inteiro de letras vivas a decifrar-se. E como se lendo um livro de trás pra frente, começamos tudo de novo: molhar orelha, morder pescoço, deslizar. Antes de dormir, soprar a vela e fechar o livro-ela, com os dedos ainda presos nas páginas-pétalas, a sussurrar.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

a professora




Entrou na minha sala exalando nínfico perfume
fechou a porta atrás de si e deixou-se penetrar
as mãos macias, a voz macia, uma safadeza tão elegante no caminhar
contava-me que ministrava idiomas e contabilidades
tributos, números, álgebras... tinha mesmo uma certa certeza no olhar

trocamos duas palavras enquanto ouvia o que seu corpo dizia
quero ter aulas de língua com você
em que língua devemos começar?
comecemos pela sua

e pela minha


Lelê Teles, Brasília

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

animal doméstico

as cobras são surdas
as baratas são cegas
as girafas são afônicas.
pinguim não é peixe
morcego não é ave
e o homem é um animal doméstico.

aflora a fauna


Se há selva
a seiva salva
o vento verga
formigas saúvam
sálvias ervam
os símios silvam
a fauna aflora.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

na janela

Dali, muchacha en la ventana


perfumou-se toda.

ajeitou o busto, as sombrancelhas e foi para a janela.

ao longe o por do sol olhava pra ela: triistes!

as virgens

que venham as virgens em cardumes.


como as piranhas.

uma santa




passávamos o dia inteiro no fundo da sacristia,

tomando vinho e comendo hóstia.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

sobre plantas carnívoras e mulheres vegetarianas




Olívia vivia sozinha em seu apartamento.
Era vegetariana e mantinha em um vaso uma planta carnívora.
Elas achavam graça uma da outra.



Lelê Teles, Brasília

sobre os pets


Tia Adélia não gostava de circo com animais.
"Lugar de animal é na natureza, não é totó",
perguntava para o seu cãozinho de pulôver.



Lelê Teles, Brasília

sobre gaiolas


Da gaiola o pássaro gritava por liberdade.
Vovô jurava que o coitado cantava.
Vovô era analfabeto na língua pássara.


Lelê Teles, Brasília

sobre aquários


No aquário o volume de água sempre aumentava.
Foi então que vovó se deu conta que, como nós, os peixes choram lágrimas transparentes.



Lelê Teles, Brasília

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Capítulo 1. Versículo 1

Lili


vem à sombra de minha fronde, amada. deita-te e abriga-te. faz de minhas folhas as vestes de teu corpo, teu lenço e teu lençol. usa minhas raízes como travesseiro. adormece aqui essa noite que o relento é frio, não é como uma brisa suave e morna.



esfrega com sutileza essa semente em teus lábios lânguidos. deixa eu balouçar sobre ti e embalar o teu sono. ao longe vem um vento forte, como se o Ser Supremo tivesse suspirado. ouçamos a voz do vento. encosta-te aqui se te amendrontas.



se tem sede aproxima a tua boca de meu meu caule e sorve, suga a seiva que liquefaz. absorve o meu regalo hídrico. vem abraçar o meu tronco se queres proteção e carinho. acaricia-te em minhas raízes. e se me vens com sede primaveril , se deixar aflorar a tua flâmula, podemos conceber flores e frutos.




Ao amanhecer, põe um balanço aqui, amarra-o neste caule. quero ver o teus cabelos sorrindo ao vento matinal. vem brincar comigo, querida. deixa eu te pegar pelos braços, te fazer sentir os ares. arejemos.


Lelê Teles, Brasília

segunda-feira, 12 de abril de 2010

sialorreia

fonte, deleite

Você sabe o que é sialorreia?

O mascarado ali atrás sabe!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Gorete e o prazer

la novia en raias

Porque tanto amó Dios al mundo, que dio a su Hijo unigénito, para que todo el que cree en él no se pierda, sino que tenga vida eterna.
Juan 3:16

Gorete ofereceu-me uma taça de vinho e fomos à lareira aquecer-nos. Crees que Jesucristo tuvo relación sexual con Madalena?, perguntou-me. Gorete, é para especular? Si, claro. Bom, Gorete, acho que buscam uma resposta tão simplória para isso. Se crêem que o Cristo era o filho de Deus, que era o Deus-Vivo, e essa é a única condição para se crer no Cristo, deve-se acreditar que ele viveu na terra como homem, mas também viveu como um ser divino, indissolúveis. Não era um Deus avant la lettre, o era em inerência.


Gorete gostava quando eu falava de Cristo sem querer negá-lo. Ela sentou-se à minha frente com o sorriso de arrancar pétalas do coração, eu sentindo a sua respiração embaçar os meus olhos. Gorete, quando menino, Jesus não foi um desses muleques de nariz sujo, deveria ter sido um garotinho enigmático, circunspecto e saciado. Quando adolesceu, viveu o que a carne vive, se assim quis.


Acredito, minha querida, que sexamos pela busca de prazer. E por que buscamos prazer? Ora, porque não o temos, só o temos em latência, é preciso estimulá-lo, liberar certas substâncias no corpo que nos prazera.


No entanto, estando o homem em Deus e Deus no homem, como era o caso do Cristo, por que ele haveria de buscar prazer se em pleno prazer e êxtase ele já vivia?


Lelê Teles, Brasília

O Buda e a Bunda

lena

De suplex branca ou amarela,
minha vizinha yogava no jardim,
enquanto eu a mirava da janela.
Ela adorava o Buda.
Eu adorava a bunda dela.


Lelê Teles, Brasília

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

e ela é tão linda

a linda Magdalena Smorczewska


A gente se conheceu por telefone. Eu esperava uma ligação no orelhão, de repente ela chegou pra ligar. Enquanto procurava o cartão na bolsa eu liguei pro orelhão e ela atendeu. Oi, eu disse. Hola, respondeu ela. Conoces el olor del rocío?, eu perguntei. Si, me queman los ojos escucharlo, ela falou com uma voz que me lembrava uma foto feita pelo Hubble: o nascimento de uma estrela. Escrevi meu nome numa pétala de rosa e dei pra ela. Ela sorriu e me disse que tinha meu nome tatuado no seu coração.



Dali fomos tomar banho de chuva. A nudez mais feliz que já vi banhar. Ela é da Polônia e tem uma singular elegância que não existe na sintaxe do caminhar das eslavas. Eu tive vontade de entrar no vestido dela e despir a sua alma. Tudo o que ela chorava sorria. Ora falávamos em espanhol, ora em francês. E os nossos olhos e olhares falavam numa linguagem que só o vento não conhece, porque o vento só conhece o movimento, e os nossos olhos se imantavam, vidrados.



Teci uma cachoeira com as lágrimas que sorriam em seu rosto e dei a ela de presente, assim como o sol dá luz ao mundo todo. Ela viu quanto interesse havia nesse meu gesto desinteressado. Falamos das florestas que temos dentro de nós, do efeito estufa e do calor que sentíamos subir pela nossa espinha dorsal quando nossas mãos se abraçavam. E também do degelo glacial que nos liquefazia. Falamos das queimadas que nos esfumaçam de paixão. Do tesão que é romper a sua camada de ozônio. Das neuroses de nossos neurônios, das Tsunamis.



Demos um beijinho de borboleta, o rímel dos cílios dela ciciaram nos meus mamilos. Depois um beijinho de esquimó. Eu me acolhi no seu iglu, uma luva de vulva. Depois um beijo de peixinhos. As escamas despidas nas camas... Enquanto eu lhe contava sobre o tantra ela me cantava um mantra, e acordados para o amor a gente dormia.



Ela é uma das criaturas mais lindas que brotaram no meu jardim. Todas as primaveras a gente poliniza. Ela me disse que Copérnico não propôs uma teoria científica, mas apenas compôs um poema, Galileu é que extraiu do poema o cálculo heliocêntrico e justamente por isso o mundo ficou mais bonito. Disse que Newton, ao descrever a gravidade, também propunha poesia. Até hoje não apareceu um cientista pra tornar científico o poema que ele fez. Explicar, por exemplo, o que é a gravidade. Isso ninguém explicou e isso seria ciência. A descrição de Newton é apenas um lindo poema, como o lusco-fusco, o crepúsculo, os arrebóis, o céu de Brasília ao entardecer quando o clima tá seco...



Achei tão lindo ouvir isso de uma flor cheia de pétalas. Toda vez que tento colhê-la ela se encolhe e me acolhe, toda vez que tento comê-la ela me escolhe. Eu adoro salada de flores, ela gosta de fotografias. Eu disse a ela que Os Dez Mandamentos foram a primeira fotografia (foton + grafia, a escrita com luz). A segunda foi o falso Santo Sudário, que é também uma foton-grafia. Ela se despetalou e, nua, pediu que eu a fotografasse. Eu a beijei com tanta ternura que até hoje ela tem gravado nos lábios o meu sorriso.



Agora, sempre que tá frio eu visto a minha musa e saio pra tomar banho de lua. Ela mora numa gruta que tenho no coração, todas as noites ela sai pra se banhar na cachoeira do meu pranto. Eu vivo de amor por ela.



Lelê Teles, Brasília.