quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um mito, Gorete!



Gorete gostava de caminhar pelas margens do Lago Paranoá e respirar o aflato árido de cerrado, admirando o espetáculo de cores que se forma no céu de Brasília em tempos de seca. No horizonte, ao pôr do Sol, o lusco-fusco cria gradações singulares. Há muitos mirantes
em Brasília utilizados para apreciar os pores de Sol, Gorete preferia as margens do Paranoá.

Fábio, o amigo-confidente de Gorete, também preferia as margens do lago, mas gostava dos cais, onde sentava em lótus e meditava. No esmaecer das cores, no escurecer do céu, na chegada da noite, eles se punham a conversar. Gorete é religiosa, tem fé e dúvidas ao mesmo tempo, em verdade a dúvida, paradoxalmente, é que fortalece a fé de Gorete. Como Fábio é cético e só tem fé na ciência, as discussões entre os dois são sempre boas para fortalecer a fé de ambos, embora por caminhos diferentes.

Com a chegada da noite, outro espetáculo de cores se apresenta na capital. Desta vez são as luzes da cidade que vão se ascendendo, colorindo as águas do lago e pontilhando iluminados matizes por casas, ruas, avenidas, praças, parques, monumentos, prédios públicos, edifícios comerciais, shoppings e apartamentos. A partir do mês de dezembro, a cidade se veste ainda mais de luzes para o natal e o reveillon. Brasília realmente fica linda nessa época do ano. Gorete e Fábio se conheceram por acaso na beira do lago. Gorete esqueceu o celular no cais, quando ligou pra ver se alguém o tinha encontrado ouviu a voz de Fábio do outro lado. Alô. Alô, eu sou a dona desse celular, disse ela. Quase você o perdeu, respondeu Fábio, solícito. Combinaram de se encontrar no cais, era início de noite. Gorete já estava em casa, pegou o táxi e foi.



Como havia outras pessoas no cais, Gorete resolveu perguntar quem era Fábio, acertou na primeira pessoa questionada. Sorriram, trocaram o cordial beijinho e Fábio esticou o celular para ela. Fábio fala amistosamente, com um sorriso alegre:

- Sabe que temos um amigo em comum?

- Ah, é? E como você sabe disso?

- A primeira vez que o seu telefone tocou era o Hermano, reconheci a voz dele e ele a minha. Você nem imagina o susto que ele levou.

- Nossa! Como esse mundo é pequeno. De onde vocês se conhecem?

- Da universidade, estudamos antropologia juntos. Quando seu celular tocou, aliás, quando ele vibrou eu levei o maior susto, a madeira começou a tremer e a fazer um barulho esquisito, quando olhei o telefone estava pra cair dentro do lago, ele foi caminhando devagarinho e já tava pra cair nesse buraquinho quando eu o resgatei.

- Puta madre, que sorte! Devo agradecê-lo duas vezes então. Dali saíram para um chopinho que se converteu em uma amizade que se arrastaria ad infinitum. Na mesa do barzinho, trocaram as primeiras impressões. Gorete falava muito e gesticulava enquanto falava. Fábio sorria, ponderava e ouvia. Em pouco tempo a conversa já estava atravessada. Gorete proferia sua fé religiosa e Fábio a contestava professando sua fé pela ciência.

- Puxa, nem sei por que a gente começou a falar disso, Fábio. Vamos mudar de assunto. - Falar disso o quê? - De religião. Já me disseram que discutir religião e política em mesa de bar é uma roubada. - Pra mim não é, Gorete. Só pra quem não sabe relativizar e contemporizar as idéias alheias. Eu não vou a bares falar de bobagens, saio com os amigos pra trocar idéias, não pra conversar tolices.

- Ainda bem. Mas por que mesmo a gente enveredou por esse assunto? - Por causa do álcool, Gorete. Todas as sociedades humanas se utilizam do artifício do uso de psicotrópicos, alucinógenos ou rituais de transe para se atingir a transcendência. A iluminação é sempre uma fuga do espaço cotidiano. Nosso aparato cognitivo necessita de um pequeno desligar do mundo tangível para absorver a possibilidade de transcendência. Às vezes, sob efeito de qualquer psicotrópico, nós ativamos esse recurso primitivo e nos pomos a cogitar sobre a religiosidade.

Gorete mexia nos cabelos, agitava os ombros e se fixava cada vez mais nos olhos de Fábio. Gorete nunca havia pensado o quão era bom estar com alguém que pensava diferente dela. E ao mesmo tempo respeitava as suas idéias e convicções.

- Você acredita no acaso, Fábio? Pergunta Gorete, inclinando o corpo para frente e falando um pouco mais baixo.

- O acaso não existe, Gorete. Fábio responde baixinho.
- Amigos, não, amigo.

- Tá, pega a tua agenda aí, Gorete.

Gorete pega o celular. Fábio pede pra ela ler os nomes das pessoas que estão na lista dela. Gorete vai falando, a partir da letra A. Adriana, Alice, André Pataxó...

Fábio a interrompe:

- Pataxó, não é antropólogo também?

- Acho que é, ele é amigo de uma amiga minha, na verdade.

- Que amiga?

- Luísa Gunther.

- Ela é uma artista alemã, criadora de pangrafismos, esposa do Wesley, um gordito de barba, literato...

- Na verdade ela é teuto-brasileira. Puxa, cara, tô de cara.

- Nós nos aproximamos por afinidade, Gorete, e não por acaso.

- Mas nem temos tanta afinidade assim, cara. Eu sou religiosa e você incréu. Fábio faz sinal de cruz com a mão:

- Credo, Gorete. Que palavra horrenda, parece nome de enfermidade.

- Não deixa de ser.

Fábio dá uma gargalhada.

- Ta bom, Gorete. Voltemos. Estávamos falando em afinidades. Quem você acha que estaria nesse cais, ao pôr do Sol? Se voltarmos lá amanhã, no mesmo horário, vamos encontrar alguém que nos conhece pelo menos de vista, de algum show, ou um vernissage, ou temos alguém em comum que conhecemos etc. Não tem nada de acaso nisso.
- Não sei não, hein. Meus pais, por exemplo, se conheceram num trem em Paris. Ele é brasileiro e ela é peruana. Isso é um exemplo do acaso agindo! - Tá, façamos como o Jackie Estripador, vamos por partes. Eles são dois estrangeiros num trem em Paris, certo?

- Certo.

– Gorete abre um meio sorriso, encantada com a facilidade de polemizar e de convencer que Fábio parece ter, ela não tira os olhos dos olhos dele.

- Seu pai fazia o quê nesse trem?

- Ué, viajava.

- Não, Gorete, viajava pra onde, ia fazer o quê em que lugar?

- Ah, ele ia para uma conferência de arquitetura numa universidade.

- E sua mãe?

- Ela dava aula nessa universidade.

- E o quê que há de acaso nisso? Dois estrangeiros que iam para o mesmo lugar, tomaram o mesmo trem. Mas cedo ou mais tarde eles iam acabar se encontrando. E como começaram a conversar?

- Papai usava casaco peruano , ela perguntou se ele havia comprado no Peru, aí começaram a conversar e viram que conheciam uma pessoa em comum lá no Peru.

- Tá vendo, a sua teoria do acaso acaba de cair por terra.

- Ufa, você é implacável, hein?

De fato, nessa noite algumas pessoas passaram pela mesa do bar e cumprimentavam um e outro, muitas cumprimentavam os dois ou se surpreendiam com o fato de os dois se conheceram, e como estavam no Beirute, um bar tradicional da cidade, freqüentado por artistas e intelectuais, ali tudo funciona como uma rede, quem não se conhece pessoalmente, conhece-se de vista e tem amigos em comum. Os dois perceberam que mais cedo ou mais tarde eles iam acabar se encontrando. Então, tudo passou a ficar cada vez mais descontraído, trocaram cigarros, sorriam muito e Gorete não parava de olhar nos olhos de Fábio.

- Em que você trabalha, Gorete?

- Estudo medicina.

- E qual será sua especialidade?

- Ah, quero trabalhar com homeopatia. Com iridologia, mais precisamente. - Então é por isso que você olha fixamente nos meus olhos, ta vendo se eu tenho problema de baço, de bexiga, de estômago...

Os dois caíam na gargalhada. Gorete ficou envergonhada de ele ter percebido que ela o olhava fixamente. Depois do chiste a coisa se dissipou, Hermano apareceu, bebeu um pouco, conversou e levou Gorete pra casa. Os dois trocaram telefone a sair com muita freqüência.

Desde então, religião e ciência pautava toda sorte de assunto em torno dos dois. Sempre no limite do respeito pela opinião do outro. Numa dessas noites, próxima ao natal, Gorete confidenciou que sentia uma certa mágoa do pai, desde a pré-adolescência, por ele não decorar a casa deles com luzes natalinas como todo mundo fazia.

- Era horrível, Fábio. O prédio todo iluminado. Todos os apartamentos decorados, as lojas, a cidade, tudo, menos a minha casa. Acho que a maioria dos filhos sofre por ter pais intelectuais, sabia?

Fábio ficou em silêncio.

Uma lua alaranjada saía de dentro do lago. Eles tomavam vinho, sentados lado a lado e aqueciam as mãos um do outro. Gorete queria falar sobre o seu trauma de não ter noites encantadas de natal como todo mundo tinha.

- Quê que você acha do natal, Fábio? Não to falando de Papai Noel, de guloseimas e presentes, essas coisas. Estou falando dessa data da cristandade, da comunhão em torno da história de Cristo. Você não acha que Cristo é uma invenção supersticiosa pra enganar os trouxas, como diz meu pai, né Fábio? Fábio respirou fundo e disse: - Você quer saber mesmo a minha opinião, Gorete?

- Claro, eu tenho o maior respeito pela sua opinião, cara. Fábio senta de frente pra Gorete e de costas pro nascer da lua. Segura nas duas mãos da amiga, olha-a fixamente nos olhos e fala baixinho:

- Gorete, Jesus é um mito!

Lelê Teles
 

2 comentários:

de vendetta disse...

Muito Bom, parece real.. na verdade parece - o fábio - um amigo meu de brasilia... será?

Sandra Daher disse...

Boa história, mesmo. E como está bem escrita, verossímil, parece verídica. Ao menos acho isso das boas ficções que leio. (Embarquei no comentário anterior rsrs).