segunda-feira, 5 de outubro de 2009

e ela é tão linda

a linda Magdalena Smorczewska


A gente se conheceu por telefone. Eu esperava uma ligação no orelhão, de repente ela chegou pra ligar. Enquanto procurava o cartão na bolsa eu liguei pro orelhão e ela atendeu. Oi, eu disse. Hola, respondeu ela. Conoces el olor del rocío?, eu perguntei. Si, me queman los ojos escucharlo, ela falou com uma voz que me lembrava uma foto feita pelo Hubble: o nascimento de uma estrela. Escrevi meu nome numa pétala de rosa e dei pra ela. Ela sorriu e me disse que tinha meu nome tatuado no seu coração.



Dali fomos tomar banho de chuva. A nudez mais feliz que já vi banhar. Ela é da Polônia e tem uma singular elegância que não existe na sintaxe do caminhar das eslavas. Eu tive vontade de entrar no vestido dela e despir a sua alma. Tudo o que ela chorava sorria. Ora falávamos em espanhol, ora em francês. E os nossos olhos e olhares falavam numa linguagem que só o vento não conhece, porque o vento só conhece o movimento, e os nossos olhos se imantavam, vidrados.



Teci uma cachoeira com as lágrimas que sorriam em seu rosto e dei a ela de presente, assim como o sol dá luz ao mundo todo. Ela viu quanto interesse havia nesse meu gesto desinteressado. Falamos das florestas que temos dentro de nós, do efeito estufa e do calor que sentíamos subir pela nossa espinha dorsal quando nossas mãos se abraçavam. E também do degelo glacial que nos liquefazia. Falamos das queimadas que nos esfumaçam de paixão. Do tesão que é romper a sua camada de ozônio. Das neuroses de nossos neurônios, das Tsunamis.



Demos um beijinho de borboleta, o rímel dos cílios dela ciciaram nos meus mamilos. Depois um beijinho de esquimó. Eu me acolhi no seu iglu, uma luva de vulva. Depois um beijo de peixinhos. As escamas despidas nas camas... Enquanto eu lhe contava sobre o tantra ela me cantava um mantra, e acordados para o amor a gente dormia.



Ela é uma das criaturas mais lindas que brotaram no meu jardim. Todas as primaveras a gente poliniza. Ela me disse que Copérnico não propôs uma teoria científica, mas apenas compôs um poema, Galileu é que extraiu do poema o cálculo heliocêntrico e justamente por isso o mundo ficou mais bonito. Disse que Newton, ao descrever a gravidade, também propunha poesia. Até hoje não apareceu um cientista pra tornar científico o poema que ele fez. Explicar, por exemplo, o que é a gravidade. Isso ninguém explicou e isso seria ciência. A descrição de Newton é apenas um lindo poema, como o lusco-fusco, o crepúsculo, os arrebóis, o céu de Brasília ao entardecer quando o clima tá seco...



Achei tão lindo ouvir isso de uma flor cheia de pétalas. Toda vez que tento colhê-la ela se encolhe e me acolhe, toda vez que tento comê-la ela me escolhe. Eu adoro salada de flores, ela gosta de fotografias. Eu disse a ela que Os Dez Mandamentos foram a primeira fotografia (foton + grafia, a escrita com luz). A segunda foi o falso Santo Sudário, que é também uma foton-grafia. Ela se despetalou e, nua, pediu que eu a fotografasse. Eu a beijei com tanta ternura que até hoje ela tem gravado nos lábios o meu sorriso.



Agora, sempre que tá frio eu visto a minha musa e saio pra tomar banho de lua. Ela mora numa gruta que tenho no coração, todas as noites ela sai pra se banhar na cachoeira do meu pranto. Eu vivo de amor por ela.



Lelê Teles, Brasília.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

in natura

da natureza do natureba

Há muito a natureza não é um espaço idílico onde o homem se lança em busca de paz interior, energização espiritual, meditação poética etc. A natureza para nós tem uma utilidade e não é vista como natureza, in natura, é vista fragmentada e reificada, uma porção de cada coisa. A terra não é mais um organismo vivo que depende de todas as suas partes para funcionar de acordo. É uma máquina! Podemos improvisar, fazer ajustes, retirar, subtrair; depois reajustar, recauchutar, retificar... Assim pensam os néscios, assim caminha a humanidade!


Porém, mesmo os que amam a natureza, os que a vivenciam, "viva a natureza", a reificam, ou pior, antropomorfizam o seu semblante. Estou pensando isso tudo de frente para uma churrascaria gaúcha, onde vou encontrar um amigo que ainda não chegou. Passa uma garota dos tempos de colégio: saião, sandalhinha, muitas bugigangas nos braços, pescoço, cabelo. Os óculos tão ok, o bronzeado, idem. Me reconheceu. Oi, tudo bem, quanto tempo e blá, blá, blá. Sentou-se. Esperando alguém, perguntou. É, tô esperando um cara que sempre atrasa, e tô morrendo de fome, fica aí e come com a gente. Ela tergiversou, que não comia carne, que era contra a matança de animais, que era um prazer necrófilo, que aquilo era um cadáver, que abrir churrascaria deveria ser crime etc. Eu quase perdi o apetite, e a amiga, pois a moça estava muy nerviosa. Sentou-se acendeu um incenso pra afastar o fedor de carne podre, como ela dizia.


Eu, sinceramente, não sabia se deixava a moça ir embora ou se dava-lhe uns catiripapos, se a aconselhava a ser mais sociável e menos xiita, ou... Me diz uma coisa Dandara, você não acha ridículo essa história de natureba-chic? Sua visão é religiosa, política, filosófica, quê que te impulsiona a pensar estas asneiras? E ela exaltada, excitadíssima: eu não faço essa divisão das dimensões políticas, filosóficas e religiosas, eu sou um animal político, luto pela conscientização de fariseus como você, para que vivamos em um mundo melhor.


Taí uma frase de efeito, eu falei com desdém. É.. eu penso assim, Dandara, por uma razão geopolítica e econômica é saudável que comamos carne e gostemos dela, somos os maiores importadores desta proteína no mundo. Por uma razão filosófica é sabido que a vida se alimenta da vida. Por questões religiosas creio que você não deixará de ir pro inferno, afinal você come repolho, alface, acelga, rúcula... e o que tem uma coisa a ver com a outra, perguntou-me. Ora, minha jovem Dandara, aos olhos de Deus não há diferença entre uma couve e um carneiro. E ela: ãh!? Dandara, uma planta é um ser vivo, tanto quanto uma vaca. Ela nasce, se reproduz e morre. Tudo bem que você possa achar uma covardia uma pessoa criar um pintinho, alimentá-lo e quando for galinha matá-la e comê-la, mas com a couve ocorre o mesmo, você planta, rega, aduba, e quando está no ponto você corta a garganta e faz uma salada.


E ela com os olhões esbugalhados, pensando. Ser contra o churrasco por ser contra a matança de animais e tão ridículo quanto a cena de um gaúcho churrasqueiro chegar aqui e dizer que não come salada porque é contra a matança de vegetais! Mais um golpe forte nas convicções naturebas da moça, desta vez um Jab de direita, ela cambaleava. E tem mais, Dandara, enquanto falamos matamos milhares de vidas que circulam ao nosso redor, ou pra você só é vida se você puder vê-la a olho nu?


Dandara virou-se de lado e ficou girando o incenso no ar. Tá bom, Olavo, tudo bem. Você já foi numa granja e viu como vivem e morrem os frangos? Já viu um matadouro, sabe a covardia que fazem com as vacas? Dandara, por que eu haveria de ir ver estas atrocidades? Você come peixe, né, Dandara? Claro, como Cristo e seus discípulos, que eram todos vegetarianos... Agora deu vontade de esbofeteá-la, me contive. Dandara, um peixe morre de agonia. Agoniza como nós no fundo das águas. O peixe é arrancado vivo da água e se debate até morrer, estressado e afogado no ar. Enquanto falava eu avançava pra cima dela com dentes enormes, ela corcoviava, se saía. Meu amigo chegou, com uma menina de saião e pulseirinha. Eu falei logo, vai comer carne? E ela: não, vou comer vocês dois. Dandara saiu mancando, claudicante e triste; nós entramos na churrascaria com muito alvoroço. Baby Beef, por favor.


Lelê Teles, Brasília.

chove em Brasília

depois de mais de 140 dias pude tomar um delicioso banho de chuva.

A chuva me lava, me eleva, me livra, me louva e me luva!

o quereres

HÁ DIAS QUE TE QUERO
ADIAS QUE ME QUERES!
Lelê Teles, Brasília

eu, você e a chuva


chove um pouco lá fora.


subi ao andar de cima para apreciar o céu chorar de alegria, ver as árvores se arvorarem e sacudirem as cabeleiras ao vento amigo. A água desliza mansamente pelo asfalto negro, tamborila na janela, goteja nas vidraças, enlanguece. Tudo flui para o todo, águas refluem. A Catedral se banha, Palácios se lavam, ministérios se elevam. Há um pouco de magia em tudo, na chuva, no sol quente, nos dias amenos... Ao menos penso eu assim! E de tanto ver e tanto pensar veio-me você nos pensamentos. Ave de plumas leves. Luvas de pelica love. Livre.


então eu era o vento e a chuva. E como o vento eu ventava. Teus cabelos dançavam a dança frenética das ninfas. Pêlos eriçam friorentos, se esgarçam. Eu, vento, cercando-a num abraço morno. Primeiro por cima, alado. Depois em volta, galante, e ainda por baixo, vento safado a levantar saia, subir por tornozelos, beijando batatas de perna, acariciando coxas salientes, mordendo-a. Ainda vento, silvo um sonido que te adentra mornamente aos ouvidos ("deixe que minha mão errante adentre, atrás, na frente, em cima, em baixo; entre").


depois eu era chuva. Molhando transparecia tudo o que segredas e pouco ocultas. Seios, pernas, bunda, barriga e braços. Tudo sentido num abraço, um abraço molhado, um abraço de chuva. Em gota, escorria em deleite nos lábios teus, beijando-lhe a boca e sendo sorvido. Dos cabelos escorria até a nuca, e ciciava um sussurro molhado e morno. Ainda em deslize percorria as voltas de teu pescoço adentrando a blusa entre os seios. Riacho que percorre montanhas.


numa melodia sem som, mas vibrante. Ao percorrer a curva montanhosa dos seios, deslizo em gota única em teu ventre, riacho saindo de montanhas e libertando-se em planície fértil. Pausa para uma volta no umbigo teu, águas que empoçam meigas. Escorria para dentro e para fora, como uma língua d'água. Sentia o eriçar dos pêlos dourados que a adornam. Arrepio!


depois, ainda no curso torrencial de riacho; saio da planície dourada do teu corpo e deslizo ainda mais, a beijar virilhas. Ahhhh, que jactância!


percorro, então, tua floresta negra, águas que se espalham. Boca d’água. Até cair nos lábios macios das margens do rio teu; molhadas. Meu riacho encontra o teu rio e se fundem, numa pororoca férvida, num gozo caliente e tântrico e, juntos, deslizamos até o mar, que é maior que nós dois.


Lelê Teles, Brasília

nihil

lena


É verdade que os poetas não acreditam em nada, perguntou-me um senhor, apagando um verso escrito no muro da paróquia. Se me perguntas se poetas em nada crêem, digo em verdade: Os niilistas é que acreditam em nada; niilidades! Poetas não creditam em nada. Mas acreditar, acreditam. Poetas acreditam na sedução das palavras, na redenção dos apócrifos, na solução dos apóstolos, na sedição das malvadas.

Se crêem em Deus? Sim, crêem ao seu modo. Talvez um deus em letra minúscula seja mais crível, um deus sem chibatas, sem chicotes. Acreditam no amor e na paixão.

Sabem que aos povos da América Latina um deus foi-lhes empurrado goela abaixo e vêem, como um poema, a ressurreição das religiões pré-colombianas, como se esses povos, agora, vomitassem esse deus, antes que a Igreja fizesse de cada novo fiel um foie gras, se é que o senhor entende a língua dos poetas!

E também crêem nos profetas, que são os poetas místicos! Se em nada acreditassem, os poetas, ao invés de escrever apagavam!

Lelê Teles, Brasília.







quarta-feira, 22 de abril de 2009

o papai noel dos miseráveis


o papai noel dos miseráveis
Num destes conteineres de lixo de Shopping Center, um mendigo encontrou uma fantasia rota de Papai Noel e prontamente trocou-a pelos andrajos que o mal vestia. E saiu assim, esquálido e fétido o nosso Papai Noel miserável.


A roupa de um vermelho desbotado e sujo. As lãs sintéticas que lhe adornavam o colarinho, a aba da gorro e os punhos da blusa estavam encardidas e esfarrapadas. Um enorme rasgo lhe desnudava a bunda. Nas costas, o saco murcho e furado.
Era 24 de dezembro. Em Brasília, uma tarde quente como as manhãs do inferno. E o nosso Santa Clauss do terceiro mundo, imundo, não tinha peru e nem frango, somente a fantasia em frangalhos e um estômago doendo pra caralho. De um lado para outro na avenida, entre vendedores de bugigangas, cuspidores de fogo e limpadores de pára-brisas perambulava o nosso famélico personagem saxão.


Balbuciava alguma coisa em sua voz emudecida pela fome, como um dublador de si mesmo, como um ventríloco esfomeado; ele era a voz guia e o boneco. Dentro dos carros de luxo, vidros hermeticamente fechados, os insípidos e insensíveis funcionários públicos engravatados respiravam o frescor e a frescura do ar-condicionado.


Esse foi o primeiro Papai Noel negro que vi em minha vida (ainda não vi um palhaço negro e isso não tem graça!).


O nosso miserável Papai Noel ia caminhando entre os carros, com o olhar magro, o semblante triste de fome, os olhos fundos e o andar claudicante. Descalço, no encalço do que comer, sofejava para os vidros escurecidos e cerrados dos automóveis: - Dá uma moedinha de presente, filho de Deus! Dá uma moedinha de presente, filho de Deus!



Lelê Teles, Brasília.


sexta-feira, 3 de abril de 2009

durma com um barulho desses

http://www.bbc.co.uk/portuguese/multimedia/2009/04/090402_g20obamalula.shtml

segunda-feira, 30 de março de 2009

nefertari, a mais bela


à noite, embriagado de paixão e êxtase, mergulhei em oníricas e piramidais digressões. E lá estava eu, como o pai do grande Imhotep, o construtor de pirâmides, a apreciar uma das mais belas formas femininas que o mundo já viu.



os cântaros jorravam perenemente líquidos aromáticos pelo interior do palácio, as divas vagavam com seus passos lépidos, ventilava uma brisa revolvida pelo adejar das aves canoras; de castiçais, luziam as flâmulas eternas.



nefertari, a musa poetisa de meu palácio, reluzia em todo o seu esplendor. Tecidos finos envolviam seu corpo nu, transparecendo toda a magia de sua soberba beleza. Soa o som das flautas, Nefertari dança votivamente em minha direção. Seu semblante delicia-me, seus olhos me sugam, as mãos serpenteiam levemente descrevendo enigmáticas formas no ar; meu coração desanda, minha imaginação desnuda-a, meus olhos marejam, embaçam, embuçam, o corpo tremeluzente regela, o suor me afoga, os lábios se crispam secos; Nefertari me afaga. Embora seus olhos sejam imantados, como os de uma deusa, sou tragado pelo chácara ondulante de seu ventre. Num frenético e delicioso movimento de cadeiras, cintura, quadris, ventre livre e umbigo. A cada jogar de quadril uma peça fina do delicado tecido colorido cai de sua cintura.



a luz, que provêm dos castiçais, aumenta a dramaticidade na nave do palácio; esmaecida, tremeluzente, agora ela revela somente a silhueta delgada da deusa. Nefertari está nua, levo-a para o pálio de sedas, ela me desnuda. As bocas se beijam, as mãos se abraçam, os corpos se lambem. O umbigo, as bordas eriçadas dos pelos do umbigo convidam-me. Sugo, sorvo, embriago-me de sua pujante e jorrante fonte de delícias, Nefertari, como convém às deusas, reluz em seu semblante de êxtase, ofega hídrica e épica. Entramos um dentro do outro, e juntos cavalgamos numa viagem de sentidos e sensações, o cavalo alado em que nos transformamos leva-nos ao paraíso dos amantes lívidos.



nefertari, minha deliciosa deusa, seu corpo é todo um poema em homenagem ao sol, e pra lá estamos indo, quentes, úmidos, abrasivos e tântricos. Feliz és o Egipto e toda a sua gente: um faraó amante e amado, uma rainha divina e cheia de encantos, faz um reino de beleza e delícias ser o paraíso para os que nele vivem. Feliz é o povo de Nefertari, feliz é a nação de Egipto, mais feliz sou eu, Ramsés II, aquele que é visitado pelo amor em seus sonhos reais de alcova.



ah, como sou venturoso, ah como é feliz a minha alma, como é fraterna a minha musa, como é doce o meu destino. Em teus braços quero morrer, bela Nefertari, em prazeroso e tântrico deleite!


Lelê Teles, Brasília

quarta-feira, 18 de março de 2009

esse blog vai mudar de endereço


em breve

juliette binoche


jully at be
not...

terça-feira, 10 de março de 2009

my michelle

a senhora Obama e seu charme inconfundível

Michelle
ma belle
Sont les mots qui vont trés bien ensemble
Trés bien ensemble
(Lennon and McCartney)

eva uma ova

eva
Eva não foi a primeira mulher
Eva foi a primeira mulher de Adão
Ele tinha outras!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

sarah





Toda vez que chovia a pequena Sara corria pro quintal e girava sorrindo. Nestas tardes pluviais, ela punha um vestidinho branco e fino; adorava as bátegas vergastando o seu vestido, lambendo-lhe o rosto, grudando-lhe as vestes nas carnes, como que desnudando-a. Os pensamentos iam e vinham; looonges.




Cresceu sob o manto rígido do pai e acostumou-se à ausência da mãe. Sempre que podia o pai lembrava que sua mãe, Ana, havia ido embora com outro homem e que a deixou porque não queria mais a filha, queria liberdade. O pai a descrevia como uma libertina impudente e criou a filha, Sarah, pra ser o oposto da mãe; para tanto, sempre que conversavam, contava-lhe as fugas noturnas da mãe, os amantes que o pai fingia ignorar para manter a família e os papos com macho ao telefone, com ele na sala, vendo televisão e fingindo não saber do que se tratava; era um homem domesticado, conivente e frouxo. Um corno manso, em suma.







Sarah ouvia tudo com uma pontinha de surpresa e um pouco de admiração. Notava quanto o pai, Rodolfo, amava Ana. Percebia que Ana tinha muitos homens e que eles faziam tudo para tê-la. Sarah se esforaçava para se mostrar constrangida e consternada toda vez que o pai lhe contava as peripécias da mãe, "aquela safada", "aquela puta que não vale nada"... como costumava descrevê-la para a filha.



Rodolfo, toda vez que via a filha rodopiar no quintal, sob a chuva forte, via o corpo sensual de Ana, o sorriso lascivo de Ana, o jeito de menear a cabeça que só Ana tinha, a forma de tocar os seios - com as duas mãos cheias e os indicadores e os opositores a acariciar os mamilos. Sarah fingia não ver o pai e levantava o vestido, às vezes o tirava. Outras vezes rolava no chão e enlameava-se nua. Sempre com um riso largo, folgado, concupiscente. Rodolfo fechava a janela e chorava.






Sara nunca falou em namoros nem em meninos em casa. Vivia às voltas com umas amiguinhas. Aos quinze anos, Sarah já era uma mocinha formosa. Busto apojado, lábios lânguidos, olhar ingênuo, corpo saliente… A cada dia Rodolfo notava uma nova semelhança com a mãe. O jeito de sorrir e mexer nos cabelos, a maneira de olhar para os homens - misto de convidativa e desinteressada -, o sorriso largo e folgado, a preferência por roupas que lhe desnudavam as coxas, as calcinhas minúsculas, quase inexistentes…







Rodolfo passou a ficar paranóico e a perseguir a filha, usar adjetivos nunca dantes usados, acusá-la de namorar escondida etc. Até que romperam, Rodolfo disse a ela na última vez que se falaram: "você é igualzinha a sua mãe, vocês duas não valem nada". Ao passo que Sarah lhe respondeu: "pensa que não sei que você me olha tomando banho de chuva e de chuveiro. Que você me deseja, que se mortifica porque não pode me ter. Seu velho safado, se não fosse frouxo e tivesse coragem faria comigo o que não pode fazer com minha mãe. Eu não sou santa, pai, eu nasci puta!" A partir deste dia nunca mais falaram um com o outro.







Três meses depois, numa tarde de chuva intensa, Sarah brincava de rodopios debaixo d'água, Rodolfo lambia a vidraça da janela, entre lágrimas. Uma buzina toca, duas, três vezes. Rodolfo e Sarah não ouvem. Até que Ana entra subitamente no quintal. Vê a filha rodando, nua, e enxerga o pai à janela. Ana grita o nome de Sarah, Sarah se vira e vê a mãe. Ana tira o chale que lhe cobre o corpo e veste a filha. As duas se abraçam molhadas. Ana pede pra filha olhar a janela e Sarah vê o pai, fala baixinho pra mãe que ele sempre a vê tomando banho. Rodolfo vê Ana abraçada com Sarah e não sabe como reagir, fica ali, parado, inerte, inútil.
As duas entram em casa, Ana o agride e o chama de tarado, de velho sem vergonha, safado, cachorro, grita, esmurra, morde e leva a filha embora.




Sarah entra na caminhonete importada da mãe, vislumbrando suas roupas sofisticadas, seu ar de madame. No caminho Ana pede desculpas, diz que não podia mais viver com Rodolfo, mas temia que ele se matasse se ficasse sem a mulher e a filha, tudo o que ele tinha na vida. Esperava a hora certa de ir buscá-la.






Chegando na bela e ampla casa de Ana, Sarah se depara com quadros da mãe, pintados em grafite. Ana em poses sensuais, sempre com um lençol branco ao fundo, os tons em preto e branco, as coxas sempre mais grossas do que são realmente, os seios também eram estilizados, maiores, mais volumosos, jactantes.





Ana diz que o marido é artista plástico e fotógrafo e um homem muito bom pra ela, leal, fiel e amantíssimo. Disse que desde que conheceu Raul nunca mais quis saber de outro homem, que ele era maravilhoso, carinhoso, amante de vinhos, de versos e de valsas. Infelizmente Raul estava viajando, chegaria dali a duas semanas.






Sarah conhece o seu quarto, já montado para recebê-la. Sorri de felicidade, as duas tomam vinho e conversam até adormecer. Ficam amigas, Sarah fala pra mãe sobre os desejos proibidos do pai, a mãe chora. Afaga a filha, beija-a. Pergunta se ele a violou, ela responde que ainda é virgem. A mãe a olha com ternura.






Duas semanas depois Raul chega em casa. Um homem cinquentão. Grisalho, pele bronzeada, voz grave e vigorosa. Recebe Sarah carinhosamente, como a uma filha. Os três estão felizes.






Às noites tomam vinho em volta da piscina ou da lareira, Sarah recita uns poeminhas picantes, mas que não chegam a ser eróticos, ana a introduz à dança do ventre. Uma família que se diverte e se respeita. Sarah passa a usar roupas cada vez mais curtas, cada dia mais saliente, cada noite mais fogosa. Uma noite Raul está pintando a mãe no ateliê, Sarah entra subitamente, se despe e posa ao lado da mãe, imitando-a, e pergunta maliciosamente a Raul: "acho que você nunca pintou uma virgem, essa é a sua oportunidade". Falou isso e segurou os seios com as duas mãos, como fazia a mãe. Esse mimetismo deixou Raul desconcertado.






Nua, Sarah tem a forma idealizada por Raul no corpo de Ana: seios fartos, coxas grossas, bunda redonda, lábios carnudos. Inevitavelmente Raul vê em Sarah uma miniatura da mãe, uma Ana na flor da idade, uma Ana indeflorada. Após as longas horas de pintura, Sarah pediu pra ser fotografada. Como tomavam vinho e estavam inebriados, todos faziam tudo inconsequentemente. Sarah se deliciava, sobretudo quando percebia uma pontinha de ciúmes da mãe.






Numa manhã iluminada e com pássaros gorjeando rimas, Sarah encontrou um livro do Kama Sutra no ateliê de Raul e viu na internet umas páginas relacionadas ao tântra, que Raul marcara em seus favoritos. Quando teve oportunidade, conversou sobre o tântra com Raul e pediu pra fotografar algumas poses que vira no Kama Sutra. Ana não estava em casa. Raul colocou a câmera no automático algumas vezes pra reproduzir com ela algumas cenas. Depois conversaram à lareira sobre o tântra. Raul propôs iniciá-la no sexo tântrico.






Ambos se deitaram nus, besuntaram o corpo com óleo aromático, acenderam um incenso cada um e mergulharam na meditação mântrica. Em pouco tempo Raul estava sobre Sarah, tântricamente.
Ao chegar, Ana vê a cena e se desespera. Puxa uma espada medieval que adornava a parede e enfia-a nas costas de Raul que cai ferido de morte. Sarah olha perplexa pra mãe e grita: "mãe, não estávamos fazendo nada de mais, Raul me iniciava na arte do tântra, sem penetração, mãe, eu sou virgem como te disse e Raul não queria fazer nada disso, eu é que insisti. Me perdoa, mãe, mas só tive coragem de fazer isso porque eu confiei nele e ele confiava em mim".






Ana passava as mãos pelos cabelos, desesperada, Raul, tombado ao lado de Sarah, já não respirava.




Lelê Teles, Brasília

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

taças de leite


duas taças,
deleite.

hai kai balão

shoot the shoe



Hai kai midiático:
VEJA,
O GLOBO
É UMA FOLHA MORTA


Hai kai ONGuico:
SE ACABAR A MISÉIRA NO MUNDO
EU MORRO DE FOME



Hai kai neoliberal:
SÓ O ESTADO
PRA ME TIRAR
DESTE ESTADO


Hai kai vegetariano:
VEGETARIANO
POR ISSO,
AINDA VIRGEM


hai kai bolivariano:
EVOÉ,
EVO
EVO, É.


hai kai neocon:
NÃO PRECISA ACREDITAR EM MIM
BASTA ACREDITAR EM DEUS



Hai Kai Moderno:
EU SOU COMUNISTA.
MINHA ESPOSA,
CONSUMISTA.
A GENTE SE AMA!




Lelê Teles, Brasília

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

os homens-alicerce

Primeiro plano: um pau-de-arara com esquálidos nordestinos que nunca haviam visto concreto, aço, nem máquinas de construção civil. Trabalhadores desqualificados erigiram o sonho do faraó Juscelino Himhotep de Oliveira. Ao fundo, o esqueleto do Congresso Nacional, erguido sobre outros esqueletos. Desde sua construção o Congresso Nacional é um grande agá.




QUANDO CHEGARAM AQUI ELES TAMBÉM TINHAM DESERTOS DENTRO DE SI

VINHAM DE LUGARES DE FOME

EMPOLEIRADOS EM PAUS-DE-ARARA EMPOEIRADOS




RAIMUNDOS, NONATOS, FRANCISCOS, EUSTÁQUIOS...


NÃO TINHAM QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL

NEM NUNCA FREQUENTARAM UM CANTEIRO DE OBRAS, AFINAL.

MUITOS NUNCA HAVIAM VISTO UMA OBRA FEITA PELO HOMEM

(PELOS MENOS UMA QUE FOSSE DIGNA DESSE NOME)



COMO EM UM MILAGRE,

DE UMA HORA PRA OUTRA,

CRIARAM UM LINDA IMAGEM

EDIFICARAM PALÁCIOS COM COLUNAS E VITRAIS

ERGUERAM MUSEUS, MINISTÉRIOS E CATEDRAIS

CONSTRUÍRAM PONTES, PONTOS, VIADUTOS, USINAS

PARIRAM LAGO, GERARAM VIAS, ENGENDRARAM VIGAS



PORÉM, HÁ UMA HISTÓRIA CONTADA QUE AINDA ECOA NOS MEUS OUVIDOS,

E SILENCIADA NESSE MAJESTOSO ESPAÇO ENTRE O CONCRETO LINEAR E O GALHO RETORCIDO

A HISTÓRIA DOS HOMENS-ALICERCE



OS HOMENS-ALICERCE VIERAM DA MESMA REGIÃO DOS CHAMADOS PIONEIROS

CHEGARAM JUNTOS, NÃO CHEGARAM PRIMEIRO

COMERAM A MESMA MARMITA, DORMIRAM NA MESMA DORMIDA

E TAMBÉM AJUDARAM A EDIFICAR, MAS TIVERAM UM FINAL NADA EDIFICANTE



BRASÍLIA FOI FEITA A TOQUE-DE-CAIXA

O RITMO FRENÉTICO, DIUTURNO, NA VELOCIDADE DAS EDIFICAÇÕES PIRAMIDAIS

PRODUZIRAM RAPIDAMENTE UM GRANDE CONTINGENTE DE VITMAS FATAIS



BRASÍLIA, A JACTANTE E MAJESTOSA CAPITAL

FOI A NOSSA EPOPÉIA E O NOSSO PIONEIRICÍDIO FEDERAL


MUITOS MORRERAM CAINDO DE ANDAIMES, PENDURADOS EM CAIBROS

ESCORREGANDO DE ESCADAS, SOTERRADOS EM AVALANCHES DE SAIBRO

TRITURADOS EM MÁQUINAS, ARRASTADOS POR ESCAVADEIRAS, EXPLODIDOS EM PEDREIRAS...

ALVEJADOS POR TIROS!


(OLHA, DEIXA EU TE DIZER UMA COISA,

PODE TER UM CANDANGO NUMA PILASTRA DO SEU PRÉDIO!)


ELES MORRIAM AOS MONTES,

VOCÊ SABE ONDE FICA O MEMORIAL EM HOMENAGEM AOS QUE MORRERAM

PARA VER O SONHO DO FARAÓ REALIZADO?

SABE ONDE OS CORPOS FORAM SEPULTADOS?

ELES VIRARAM MASSA, REJUNTE, BRITA, CASCALHO...

NO ACAMPAMENTO PACHECO FERNANDES,

(NA VILA PLANALTO)

DEZENAS DELES FORAM FUZILADOS PELO EXÉRCITO INFAME

(NO CANTEIRO DE OBRAS, NA BEIRA DO ASFALTO)

O LAGO FOI INUNDADO `AS PRESSAS, SEM ESPERA

AFOGANDO AS HUMILDES MORADAS DOS PIONEIROS

QUE ENCONTRAVAM ABRIGO NA SUA CRATERA


QUEM VAI CONTAR A HISTÓRIA DESSES HOMENS, MEU DEUS!


OS HOMENS-ALICERCE

NÃO FAZEM PARTE DA MEMÓRIA DA CIDADE,

EMBORA INSISTAM EM RESSUSCITAR E CONTAR A SUA VERDADE.




Lelê Teles, Brasília.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

E se você estivesse aqui

Isis, minha amiga do coração.


Hoje mesmo eu estaria, se aí estivesse, a atirar pedras n'água e ver os círculos concêntricos se abrindo pela força centrípeta que a pedra suscita. Como um náufrago que encontra a garrafa e bebe a carta que nela habita.
E a cada pedrinha, uma nova ondina rodopiando na minha cabeça, chacoalhando tudo para por tudo no lugar, só para desarrumar depois; infinitamente. Se aí estivesse sentiria o mesmo que você sente.
Se tivesse aí, agora, a ver o laguinho que a cachoeira produz, estaria como você, amor; estaria como o homem seminu que morreu na cruz: completamente dentro de mim e todo exterior.

Lelê Teles, Brasília


sexta-feira, 21 de novembro de 2008

mi payasita

minha linda palhacinha

todo en la vida es sueño

A magestosa e caríssima Ponte JK. "Uns querem transformá-la em cartão-postal; outros, em inquérito policial" (GOG).
Se chamava Washington. Aliás, chamavam-no Washington, ou melhor o seu nome era Washington, mas todos chamavam-no Uoshto. Creio que ele próprio não sabia a grafia de seu nome; nasceu assim, meio torto, claudicante, de viés. Sonhava como todo menino, dormindo e acordado, sonhava mais acordado que dormindo. O seu sono não era tranqüilo, tinha sempre um rá tá tá tá, um tiroteio noturno, vizinhos se esbofeteando de madrugada, cachorros dando carreira em desocupados, os cachaceiros que cantavam ao longe.
Mas mesmo assim ele sonhava...
...no sonho ele flutuava; pétala que se desprega e vai descrevendo um poema no ar. A gota de orvalho cintila náufraga a anunciar o silêncio sombrio das fragatas a singrar. Uoxto sonhava com sabores inauditos, texturas nunca dantes experimentadas, sonhava também com o olfato. De facto criava um mundo inefável na fantasia onírica.
Mas o sonho não é reminiscência, não é lembrança da vida em vigília? Oshto, como não tinha tempo pra teorizar - nem método - ia assim, sem querer, desafiando as teorias que pretendem dar conta do material singular que permite ao homem uma dose de torpor e encantamento. Sempre lhe vinha o que ele nunca via, como um fomentador de desejos. Os sonhos criavam nele desejos e os satisfaziam, como faz a publicidade; não, não, a publicidade apenas fomenta desejos, o dinheiro é que os sacia. Já sonhou em línguas que ele nunca ouviu, parlamentando com autos signatários, articulando bem e descrevendo sintagmas dentro de uma estrutura ignota.
A mãe o acorda aos berros: "Óxto, acorda doido, vai procurar alguma coisa pra cumê que tua irmã morre de fome enquanto tu fica aí, como fi de adevogado, de boca aberta".
Toda manhã era assim, sacolejado pela mãe, levantava vôo em direção à cidade em busca do que fazer, na ânsia do que comer. Morava debaixo da ponte JK, também conhecida como terceira ponte, que liga a cidade de Brasília ao bairro do Lago Sul, que tem o IDH igual ao da Noruega. Ali, debaixo da ponte, uma favelinha ia vivendo com a vizinhança abjeta que descarregava neles todos os dejetos diários. Além do alarido do tráfego trêfego. Todas as manhãs Oshto despertava ao som das embarcações: lanchas, iates, kite surf, esquifes, caiaques etc. Brasília é a terceira cidade brasileira em número de embarcações náuticas!
Óshto celebrava aquele playground aquático onde ele jamais estaria fisicamente, mas já sonhou com um mar azul e flutuante, ele nadava em bolhas d’água no refluxo matinal de nove luas em planeta ignoto. Dançava ao som das nuvens em deslocamentos.
Se espreguiçava ao despertar, como faziam os cães e os gatos; mimeticamente. O Lago Paranoá, esta maravilha artificial que margeia toda a cidade, tem as águas verde-musgo em alguns pontos onde a balneabilidade é proibida, justamente no ponto onde a mãe de Uóshto, e outros renegados, estendeu a lona negra que é o seu abrigo. Fétida casa, úmida e sombreada pelo umbral da ponte.
Nunca tinha o que comer amanhecendo, ritualisticamente ele punha as mãos em concha e bebia um trago das águas verdes da parte poluída do lago. Cria que o verde era devido ao alto teor nutritivo da água. Conselho da mãe: "Tome uma caneca dessa água todas as manhã, aí tem vitamina, meu filho. Isto é merda de ministro, de deputado, médico e adevogado. Esse verde aí é muita rúcula, alface, brócolis, aspargos, toda a sorte de verdura e leguminosa que possa existir. Nunca se viu uma água tão nutritiva como esta".
De facto Uoshto tinha uma barriga gorda, efeito da água, não se sabe se benéfico ou maléfico. Certo dia, um garotinho de quinze anos tomou muito whisky e cheirou cocaína a noite toda, pegou a lancha do pai e foi dar cavalos-de-pau na água. Desgovernou-se e entrou facilmente na casa de lona preta.
Washington tinha visto a festa da posse do presidente pela manhã e passou o dia inteiro ocupado com isso, o presidente havia sido gente como ele, quiçá tomou água nutrida como ele, por isso suportou. Nesta noite Washington sonhava que presidia uma cidade repleta de pirâmides, era assim como o rei Pacal, dos Maias. Amante das artes e das nobres edificações...
A lancha esmagou mãe, filho e filha. Em algum lugar está Washington em sonho, talvez embalado pela mística de Pacal em piramidais digressões estelares. Porque todo en la vida es sueño.




Lelê Teles

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

seus olhos garços

a belíssima paula lagrotta, je suis enchanté...

Tem uma coisa magnética nos seus olhos garços que não cabem nos meus versos, porque imantam tudo ao seu redor, como um buraco negro que se alimenta de universo; tem uma flor imarcescível que desabrocha quando você abaixa o seu olhar tímido, uma lâmina lânguida que dá vontade de lambê-la; uma lírica líquida.


Tem uma coisa aí que tenho medo de saber o que é realmente, temo decifrá-los e eles me devorarem.


Dá pra sentir o cheiro fragrante dos seus olhos como a gota de um suor que escorre dos lacrimais... tem uma coisa nesses olhos que é demais!


Lelê Teles, Brasília



sexta-feira, 14 de novembro de 2008

cidadãos do mundo

Ainda na legenda: Pierre Weil, Lelê Teles, Caretinha, Gilmar, Geovane, Tarsila, Marck Sacco, Pajman, Gustavo, Moranguinho, 3 Estrelinhas, Jonisval, Andréia, Vanessa, Sergie, André, Dr. Fahad...
Turma formada por jovens anarquistas e religiosos ligados á fé Baha'i, à Rosa Cruz, Brama Kumaris etc. Esse era o nosso sonho de mudar o mundo, por meio da paz!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Morre Pierre Weill






A ave holística: Ave, Pierre, Evoé.

Voa, vovô, voa
Vai, Pierre, Weill
Singra no ar com tuas asas alvas
adeja no mar como uma pomba náufraga

arrebenta sereno na beira do cais.

Pra sempre a lembrança:
A maturidade encanecida nos cabelos comprova
A vivacidade e a candura de um belo rapaz
Na maternidade estelar renasce como uma supernova
Vá Pierre,
em paz!

Lelê Teles, Brasília
Fundador da Universidade Internacional da Paz (Unipaz), o psicólogo e educador francês Pierre Weil, 84 anos, morreu na noite de 10 de Outubro em Brasília. Em 1994 eu estudei na Universidade Holística Internacional (Unipaz), e como foi delicioso, como foi prazeroso aprender com esse grande mestre.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

giulita canta suzanita

terça-feira, 30 de setembro de 2008

um frevo de capiba




Clica na imagem e boa diversão.


Se
a madame tem em casa um frevo, destes de Capiba, ponha na vitrola. Ponha também uma sombrinha na mão da moça. Pronto, a alegria tá posta!

quarta-feira, 21 de maio de 2008

lindas

lenas


ela enche meu coração de sonhos, de beijos e de desejos; preenche minha alma, afaga meu ego, afoga empáfias, refuga 'a refregas, refrigera-me a infância que me aflora agora.

temos giulita, uma joaninha sapeca, lépida e inteligente. amiga-nos, ama-nos, une-nos; ludicamente. temos como que um coração que se reparte em três, mas que não se divide. temos tantos momentos felizes juntos. tantos sorrisos, tantas ternuras. tantros... tantras...

e temos, ainda, uma vida inteira pela frente.


lelê teles, brasília

ecofagia ou eco-lógica

eu e ela
QUEREM A FLORESTA VIRGEM
OUTROS A QUEREM DEFLORAR
AFLORAM ANTÍPODAS DIRETRIZES
REFLORESTAR, DESENVOLVER OU DESFLORESTAR

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QUANDO FALAM EM MEIO AMBIENTE
COGITA-SE FAUNA, FLORA E PURO AR
A QUESTÃO É QUE NO MEU AMBIENTE
HÁ MUITA GENTE E BARRIGAS A ALIMENTAR

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NÃO QUERO UM JARDIM ANTROPOLÓGICO
COM SILVÍCOLAS NA IDADE DA PEDRA
NÃO QUERO ESSE MUSEU VIVO, ETERNO E ILÓGICO
DE QUE A NOVA ERA É A ERA QUE JÁ ERA

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O QUE EU QUERO É
QUE HOMENS PLANTAS E ANIMAIS
ÁGUAS, PLÂNCTONS E CORAIS
VIVAM CONTÍGUOS E FAGOCITÓSICOS
CONVIVAM CONTIGO E COM OS DEMAIS


Lelê Teles

seu estrelo e o fuá de terreiro


os maravilhosos músicos-bailarinos do Seu Estrelo e o Fuá de Terreiro


sim, nós temos um mito.



eu vi nascer um calango na cabeça do amigo. diferente de todos os calangos do cerrado, esse nosso pequeno dinossauro era um pterodáctilo empoeirado, um pégasus que rasteja, o mítico Calango Alado. e toda uma fauna exótica nascia com ele: elefante, gavião, caliandra, Sinhá, Biu, Cantadô, Pescadô... e cada minina bunita, cada pé de fulô.


o folguedo se assanha a gritos, batuqes e apitos. a gente se assenta ao rito, à roda, ritmo e riso; e o troço mais bonito é o desenrolar deste mito. o povo se refestela, a fauna se gravanha, o coração da gente martela, a alma da gente se banha.


Agradeço mil vezes a Tico, demiurgo criador encantado, que tem a alma suja de mangue e tem no sangue a poeira líquida do cerrado.



Lelê Teles, Brasília


segunda-feira, 31 de março de 2008

Gorete e a ressurreição


as duas irmãs estão à frente, tensas e chorosas. logo em seguida, Jesus Cristo.


em segundo plano a turba curiosa, estupefata. à frente, com passos lentos, vai surgindo o moribundo agora vivo. Assim que transpõe o umbral da cova, a figura de Lázaro vai sendo preenchida pela luz quente das áridas paragens da Judéia. a turba recua um pouco, boquiaberta e assustada. Marta e Maria avançam lentamente para próximo do irmão.



Jesus permanece imóvel, impávido, incólume. Lázaro, então, rompe o silêncio: mas o que significa isso?, fala, olhando para as ataduras cheias de chagas que envolvia o seu corpo outrora moribundo. quem fez isso comigo?, pergunta, enfático e furioso.



os curiosos ficaram ainda mais assustados, recuando um pouco, chocados.


não seria fácil pra nós vivermos sem ti, Lázaro! disse Maria, sua irmã, enquanto Marta a afagava. Lázaro, colérico: então foi pra satisfazer vocês que me trouxeram de volta? quer dizer que enquanto vocês viverem eu terei que, uma vez morrendo, ressuscitar para fazê-las feliz, até que as duas morram?!

Jesus, então, resolve falar: Lázaro, Deus é contigo. felizes estão as tuas irmãs, e cheio de júbilo está o povo que presenciou mais uma das graças do Pai.



Lázaro, então, num ataque de fúria, se lança para cima do Mestre da Galiléia. por quê você fez isso comigo, cara? por quê me trouxe de volta?! e Lázaro olhava no fundo dos olhos-pélagos do Deus em carne. furioso: Você sabia onde eu estava; o que mais me indigna é que Você sabia onde eu estava! se Você teve o poder de me trazer de volta, Você poderia ter me perguntado se eu desejava voltar. Mas não. Você quis satisfazer a vontade de minhas irmãs e seguir na Sua campanha, no Seu proselitismo profético, às custas do meu amargo retorno. eu quero que Você me mande de volta, agora!


a turba urra de curiosidade, uns olhando para os outros, todos interrogativos. Lázaro volta para a tumba de onde saíra - sinistro ato -, e de lá grita: Jesus... não quero que ninguém entre aqui, nem Você e nem minhas irmãs, até que Você me mande de volta para o lugar de onde me tirou, sem pedir a minha permissão. as irmãs choram convulsivamente. Jesus coça a cabeça... cai o pano.


porra, Fabão. mas isso é muito forte. qual é o sentido de se encenar isso, cara? Gorete, tá afim ou não de dirigir a peça? não sei Fabão, lê de novo, tô confusa.


estávamos, eu e Gorete, num ritual nayambing, na chácara de uns amigos rastafaris, da Guiana Inglesa, ouvindo a deliciosa música gospel dos rastas, e o retumbar dos tambores sincopados. era lua cheia, e eu realmente gosto de estar com esses caras, é uma religião deliciosa e interessante a deles, e eles são puros e verdadeiros, isso me encanta, a mim e à Gorete.


numa pausa pra comer, eu lia pra Gorete uma peça que escrevi sobre Lázaro e gostaria que ela dirigisse. Gorete me disse que tinha white widow e ia acender um só pra ver se eu conseguiria convencê-la a dirigir a peça. como os tambores do nayambing, o white widow é irrecusável.


eu disse a ela, enquanto fumávamos, banhados pela lua e ao som longínquo dos tambores: Gorete, a ressurreição de Lázaro é uma contradição à pregação do mestre. como assim, Fabão?


Gorete, lembra que em Atos dos Apóstolos 3:1-10, Pedro e João encontram um coxo à porta do Templo, a esmolar? "não temos ouro nem prata, mas o que temos lhe damos, e fez o coxo andar normalmente", completou Gorete. e nós Gorete, não chegamos a conclusão no dia em que lemos isso juntos que não fazia sentido com a doutrina do Cristo? de facto, Fabão, chagamos a conclusão que o Mestre não curou ninguém que não tenha buscado a cura, a fé é que curava as pessoas, segundo a doutrina do Cristo; Pedro foi arrogante em seu proselitismo, fez o que nem o mestre teve o despudor de fazer. isso mesmo, Gorete, o homem pediu esmola e não que lhe retificassem as pernas; Pedro não podia se arvorar como mágico; a cura milagrosa e a fé caminham juntas.


no entanto, querida, em Lázaro, vemos uma única vez Jesus intervir por alguém que não clamou por ele. porra, Fabão, é isso! e Jesus, quando foi ressuscitado por Deus, ficou entre os vivos poucos dias, só até dar as últimas instruções aos discípulos, depois foi para as tais outras moradas, onde vive Jacó e Elias, que também não morreram, foram arrebatados para o "céu". por que diabos ele fez Lázaro viver de novo num lugar cheio de cegos, coxos, entrevados, mancos, prostitutas e sanguinários legionários romanos? o cara tava no paraíso! né não, Gorete?! e quer saber mais, querida, os egípcios também criam em ressurreição, por isso se enterravam com seus súditos e familiares, envoltos a todas as jóias que tinham. criam que, não importam para onde fossem, voltar pra cá seria sempre melhor. o Mulçumano que se explode por aí, crê no além, lá ele sabe como é, tem Alá e muitas mulheres virgens esperando-o para amar lascivamente. o cristão não sabe o que é o paraíso e talvez por isso não creia nele com tanto fervor. lembre de Peter Tosh: todo cristão quer ir pro céu, mas nenhum quer morrer! minha vó, Gorete, agonizava no leito de morte, já velha, sem andar, sem sentir o sabor das coisas e tendo que ser lavada por outras pessoas, assim mesmo ela se apegava ao terço e pedia a Deus que não a mandasse para o paraíso, ela queira continuar viva, mesmo que em condições degradantes; eu cheguei à conclusão que minha vó não cria com fervor que havia uma outra vida e um outro lugar.


os cristãos, Gorete, não contestam a ressurreição de Lázaro porque no fundo não crêem que Lázaro pudesse estar em um reino de bonança e paz, eles acham lindo a ressurreição de Lázaro, acham normal que Cristo tenha trazido alguém da "outra morada" para reviver no deserto da Judéia. ora, se Lázaro vivia aqui e morreu, logo ele vivia em outro lugar; elementar. ao voltar pra cá ressuscitado, teve que morrer no outro lugar onde vivia. a ressurreição é, por tanto, além da volta à vida, uma segunda morte!


e a onda do white widow bateu. ouvíamos o som longínquo dos tambores, de boca aberta e quase babando. e não dissemos mais uma única palavra. A lua também nada disse.




Lelê Teles, Brasília.

sábado, 29 de março de 2008

minhas mulheres

meus amores

quinta-feira, 27 de março de 2008

sem legenda

terça-feira, 18 de março de 2008

as ninfas e o sátiro

Nymphs and Satyr - William Adolphe Bouguereau

sexta-feira, 14 de março de 2008

go home

terça-feira, 4 de março de 2008

across the universe

segunda-feira, 3 de março de 2008

a quem servem os motoboys?


Ana Male, quer tudo na mão

Ela se chama Ana Male, nome de ariz pornô. Ela detesta que lhe lembrem disso, toda hora eu digo isso pra ela. Não só o nome dela é um palíndromo, ela é toda palindrômica. Tem várias conversas atravessadas, você não sabe se está indo ou se está voltando. Outro dia, no trânsito, ela reclamava do excesso de motoboys e da imprudência deles. Você detesta eles né, Ana; perguntei. Ela começou a falar sem parar, disse que eles eram mal educados, mal instruídos, selvagens e que a maioria deles nem tinha habilitação. Sabe como é, quando uma mulher começa a falar sem parar e acende o cigarro, que ainda nem terminou, no outro é melhor ficar calado. Esse é o início da histeria. Deixei Ana falar. Tudo o que ela dizia era puro preconceito. Eu aumentei o som, tocava um delicioso hardcore do Rattus, da Finlândia. Chegamos à casa de Ana Male, 10:11 da noite.

Ana Male acabara de iniciar um curso de dança do ventre, embora fosse uma estadunidense apaixonada por hardcore feito na escandinávia, como eu. Eu tava louco para vê-la dançar. Colocamos alguma coisa no narguilé e ficamos baforando. Ela voltou da cozinha e disse que ia pedir uma pizza, perguntou se eu preferia pizza ou comida chinesa. Eu disse que não queria nada que fosse entregue por um motoboy estressado. Ela ficou parada sob o umbral da porta, me olhando. Como ela ficou muito desajeitada, começou a sorrir e fez que não era com ela. Depois insistiu: Cara, tem uma pizzaria aqui que faz a melhor pizza da cidade e sabe qual é o melhor? Se eles não chegarem aqui em trinta minutos após o pedido a gente não precisa pagar! Ligou e pediu a pizza, nem lembro o sabor.

Nossa, Ana, você é sádica hein? Você está sorrindo dessa bobagem que acabou de me falar? Ela ficou muda. Senta aqui, Ana. Ela sentou e baforou o skunk. Ana, em São Paulo morrem 2 motoboys por dia; em Goânia, um a cada 36 horas... e fui listando; quando não morrem, esses caras são vítimas de ocorrências no trânsito, que normalmente acarretam problemas como hemorragias internas, ossos quebrados e, em alguns casos, perda de membros como braços ou pernas. Eles correm, Ana, não porque sejam loucos e mal educados, eles correm porque pessoas como você têm pressa!




Ela se levantou. Eu continuei: Ana, nenhuma pizzaria vai te dar uma pizza de graça... A daqui da quadra dá, cara, como eu te falei. Ana, a pizza não sai de graça. Se o motoboy não chegar em 30 minutos na sua casa, onde você está confortavelmente sentada e fumando skunk, quem paga a pizza é ele.





Ela me olhou com dois olhos enormes. O motoboy, Ana, tem que vir muito rápido pra entregar sua pizza a tempo. Ele tem três alternativas: ou entrega a sua pizza em 30 minutos, ou paga com o salário dele ou com a vida! Para isso ele fura sinal, corre pela calçada onde caminham os velhinhos e as crianças, corta os canteiros, não respeita a faixa de pedestre... Não é o motoboy que cria uma situação de caos no trânsito, Ana, é você!




Ela ficou imóvel por alguns segundos. Depois pegou o telefone, ligou e cancelou a pizza. Pegou as chaves, me pegou pela mão e descemos o elevador sem falar nada um com o outro. Ela dirigiu até a pizzaria, foi ao caixa e pediu a pizza. Enquanto esperava ela foi conversar com um motoboy que aguardava do lado de fora, pronto pra fazer entrega. Demorou um pouco, fazia perguntas e meneava a cabeça afirmativamente. Depois ela veio, me deu um beijo na boca, me olhou nos olhos e me agradeceu, envergonhada. Pegamos a pizza, compramos um vinho e nunca mais falamos nisso!


Lelê Teles, Brasília.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

sobre o trabalho

ele, infante


O cara me perguntou, Lelê tô desempregado, tem alguma coisa aê? E eu disse, rapaz, a coisa tá tão feia que até celular tá procurando serviço.

Mas tem trampo por aí, cargo: pentear macaco, pintar listras em zebra, desenhar asa de borboleta, fazer chapinha em leão, catar piolho de cobra, pintar unha de onça braba, desentupir cu de elefante, aparar bigode de ariranha, doar sangue pra morcego e escovar dente de tubarão.

Mas não, fulano quer ser funcionário público, ficar lááá... tirando xerox, lixando a unha e falando no msn. Amolecendo a bunda, engordando a pança e parasitando o estado!


Lelê Teles, Brasília

hannah

pra hannah

Se um dia eu te convidar pra beber, te convidarei pra bebê, pra ninar, pra fazer carinho e cafuné.

Na hora que te convidar pra comer, vai ser pra fazer bebê, pra fazer morder, para despetalar.

Se te convidar pra caminhar, será pra correr, pra gente se esconder, ver a lua sumir e o sol nascer.

Quando eu te convidar pra morrer, vai ser pra desfalecer, pra tantriar, pra te comer!

Lelê Teles

toca let's lynch the landlord


Se o DJ é bom, toca dead kennedy's

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

poesia em 10 cordas, dudu maia



Adoro a poesia que Dudu Maia extrai de seu bamdolim.

très jolie

angelina c'est très jolie


O nariz foi feito pra segurar os óculos
e os lábios pra soltar os ósculos


Lelê Teles

tanta coisa a gente quer ser na vida

hoanna


Sabe como é...
Meu irmão quer ser moça.
Minha irmã: tirar foto, tirar roupa.
Eu só queria ser a piteira de um narguilé,
ou qualquer outra coisa que te beijasse a boca.

Lelê Teles

agora somos três


A primeira dançava leve em meus pensamentos
Desde há muito
Eu a imaginava em imagem vulva
Sêmem ava um poema em seu corpo
E acordava porejando suores, balbuciando beijos

Arredia e entregue, deliciosamente plena de malícia
Seus olhos e olhares imantavam-me em encantos
Defloravam-me em carícias


Ela é como uma santa impudente
Ígnea como um raio indecente
Meu jardim de delícias
A outra é uma deusa egípcia

Dança também em leves rodopios
No caleidoscópio de meus encantos

O ventre agarra-me como grilhões
Os olhos fulminam-me vadios
O sorriso me lava em prantos
Com elas me elevo cantante
Elas me levam galantes
Juntos somos três amantes


Como um Adão e duas Evas
Desnudos na mata perdida
Juntos somos o pecado
Eu, Nefertari e Brida
Lelê Teles, Brasília


gorete y el ojo de dios


el brillo fluorescente de esa estrella es consecuencia de la expulsión de los gases desde el centro. Esa es la rarísima Nebulosa de la Hélice, creada al final de la vida de una estrella. Solo se la puede ver cada 3,000 años.

gorete está a mi lado, mirando el imagen en un planetario. Sus ojos preguntan, pero mismo que sus labios sepan la respuesta no tienen, ahorita, ganas de decirla. Mi espíritu se aleja de mi cuerpo volando plúmbeo y flátulo, pesado y levísimo.


desde aquí, yo veo una miríada de imágenes e imagino sus sonidos, sus olores, sus sensaciones. Gorete, siempre interrogativa y deísta, mira El Ojo de Dios y se siente una venturosa chica elegida por la Providencia; a mi me parece bien que así le sea, a veces tengo ganas de sentir lo mismo que siente Gorete en algunas ocasiones, su creencia amplifica su placer, su deleite; yo, por mi lado, tengo siempre que racionar lo que siento, haciendo con que la cosa sea una mala onda, sin una plenitud!


intento una ves más mirar El Ojo de Dios, aunque no lo consigo, pero si miro los ojos de Gorete es como se contemplase todas las elucubraciones de las teologías; Gorete es una miríada de emanaciones divinas, aun que ella no lo sepa.

Lelê Teles, Brasília

camilinha, como uma coppelia


minha queridíssima Camilinha


O sorriso dela socorre a linda gota de prazer que lhe escorre. Lejos, se muestra como se fuera una muñequita, una Coppelia. Cerca, abre-se como pétala; como leve pluma, levita; como se negasse o peso que a gravidade lhe dá ao corpo esbelto: uma pluma plúmbea!


Com os mesmos olhos que Franz mirava Coppelia eu via Camila: sua imobilidade movia tudo o que era vivo ao redor, movendo-se tudo parava. Meus pensamentos saltam, impulsionados por um demi-plié, a onírica mola de sonhos que me eleva e me leva a ela, e assim encontro minha entropia. Uma miríade de sensações palpitam corpo adentro.


Agora mesmo a vejo na varanda. Nossos olhares bailam num pas-de-deux de sorrisos. Hoje tenho uma caixinha dentro do coração. Nela, uma bailarina rodopia frente ao espelho, acompanhada por doces melodias que flutuam como bolhas de poemas ao ar. Com a graça das ninfas-nuas. Como a linda imagem de Camilinha a caminhar em nuvens.

Lelê Teles, Brasília

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

contra qualquer império

QUEM TEM BOCA VAIA ROMA!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

me ame, ou, miami


CUBA,

ME AME

OU


MIAMI

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

pangrafismo

Homenagem à arte pangráfica de Luiza Gunther

O alimento pangráfico mata a fome das bocas d'alma, o elemento pangráfico se arvora numa voraz investida contra os vestais, os falsos pigmentos estéticos, os pseudo dizeres eufêmicos. O ser pangráfico é livre e não tergiversa, não retrocede, sua pulsão é de vida, sua pulsação é vivida por aqueles que compartilham o existir libertário. O pangrafismo é um elemento oriundo do corpo de Gaia, acompanha a onda votiva dos astros, o holomovimento, a holopraxis, a dança entrópica do caos!
Pangrafismos são formas de palavrear imagens e imaginar expressões por meio das imagens-palavras. É uma mixórdia, uma miscelânea, uma mistura de elementos visuais imaginários, na criação de uma imagética real, num desdobramento lúdico e lírico; lépidas palavras desafiam a inércia e a alienação; pangrafismo é uma pulsão revolucionária, é o dínamo das vozes incorformadas, lenitivo dos que buscam os antípodas, atilho dos rebeldes, emético dos punx, dos junx, dos blax...

Lelê Teles, Brasília


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

winehouse

Amy

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Fuleiragens aforísticas

Pescador, Tarsila

Fuleiragnes Aforísticas Políticas

O escroque, influenciado por políticos, se põe a pensar:

Ora, se até o Celso Pitta, eu também quero pitar.

Fuleiragens Aforísticas Existenciais
Razão para os homens e ração para os animais.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

sepultura

sem legenda!

poema para os pássaros e para os peixes

minha priminha, Mari



O Pássaro não sabe se voa ou se nada; o pássaro não sabe de nada. Os peixes não distinguem se voam ou se nadam. Analisando friamente os movimentos são os mesmos, o uso de asas-nadadeiras, o aproveitamento de correntes (de ar e de água) e a limitação ao pélago. Estes seres pelágicos, que flutuam no corpo da água ou no corpo do ar simplesmente se movem, ou melhor, o movimento é que se movimenta neles, como quis Pessoa. O avião e o submarino, ave-peixe artificial, também não tem consciência se voa ou se nada. Mas é certo que quando choram, os peixes choram lágrimas transparentes. Morcego não é pássaro, baleia não é peixe, golfinho não é peixe. É certo que uma ave-maria, um ave-césar não passarão. A diferença do aquário para a gaiola evidentemente é a água. Engaiolados, os pássaros cantam uma música triste. Aquarianos, os peixes choram.



Quando a gente acende a luz, pra onde vai a escuridão?





Lelê Teles, Brasília

e ela é tão linda

a linda Magdalena Smorczewska


A gente se conheceu por telefone. Eu esperava uma ligação no orelhão, de repente ela chegou pra ligar. Enquanto procurava o cartão na bolsa eu liguei pro orelhão e ela atendeu. Oi, eu disse. Hola, respondeu ela. Conoces el olor del rocío?, eu perguntei. Si, me queman los ojos escucharlo, ela falou com uma voz que me lembrava uma foto feita pelo Hubble: o nascimento de uma estrela. Escrevi meu nome numa pétala de rosa e dei pra ela. Ela sorriu e me disse que tinha meu nome tatuado no seu coração.



Dali fomos tomar banho de chuva. A nudez mais feliz que já vi banhar. Ela é da Polônia e tem uma singular elegância que não existe na sintaxe do caminhar das eslavas. Eu tive vontade de entrar no vestido dela e despir a sua alma. Tudo o que ela chorava sorria. Ora falávamos em espanhol, ora em francês. E os nossos olhos e olhares falavam numa linguagem que só o vento não conhece, porque o vento só conhece o movimento, e os nossos olhos se imantavam, vidrados.



Teci uma cachoeira com as lágrimas que sorriam em seu rosto e dei a ela de presente, assim como o sol dá luz ao mundo todo. Ela viu quanto interesse havia nesse meu gesto desinteressado. Falamos das florestas que temos dentro de nós, do efeito estufa e do calor que sentíamos subir pela nossa espinha dorsal quando nossas mãos se abraçavam. E também do degelo glacial que nos liquefazia. Falamos das queimadas que nos esfumaçam de paixão. Do tesão que é romper a sua camada de ozônio. Das neuroses de nossos neurônios, das Tsunamis.



Demos um beijinho de borboleta, o rímel dos cílios dela ciciaram nos meus mamilos. Depois um beijinho de esquimó. Eu me acolhi no seu iglu, uma luva de vulva. Depois um beijo de peixinhos. As escamas despidas nas camas... Enquanto eu lhe contava sobre o tantra ela me cantava um mantra, e acordados para o amor a gente dormia.



Ela é uma das criaturas mais lindas que brotaram no meu jardim. Todas as primaveras a gente poliniza. Ela me disse que Copérnico não propôs uma teoria científica, mas apenas compôs um poema, Galileu é que extraiu do poema o cálculo heliocêntrico e justamente por isso o mundo ficou mais bonito. Disse que Newton, ao descrever a gravidade, também propunha poesia. Até hoje não apareceu um cientista pra tornar científico o poema que ele fez. Explicar, por exemplo, o que é a gravidade. Isso ninguém explicou e isso seria ciência. A descrição de Newton é apenas um lindo poema, como o lusco-fusco, o crepúsculo, os arrebóis, o céu de Brasília ao entardecer quando o clima tá seco...



Achei tão lindo ouvir isso de uma flor cheia de pétalas. Toda vez que tento colhê-la ela se encolhe e me acolhe, toda vez que tento comê-la ela me escolhe. Eu adoro salada de flores, ela gosta de fotografias. Eu disse a ela que Os Dez Mandamentos foram a primeira fotografia (foton + grafia, a escrita com luz). A segunda foi o falso Santo Sudário, que é também uma foton-grafia. Ela se despetalou e, nua, pediu que eu a fotografasse. Eu a beijei com tanta ternura que até hoje ela tem gravado nos lábios o meu sorriso.



Agora, sempre que tá frio eu visto a minha musa e saio pra tomar banho de lua. Ela mora numa gruta que tenho no coração, todas as noites ela sai pra se banhar na cachoeira do meu pranto. Eu vivo de amor por ela.



Lelê Teles, Brasília.

carnaval, carne levare

OXUM

Carnaval deriva de carne levare
ou
adeus à carne.



ADEUS À CARNE
ou
À DEUSA CARNE

Lelê Teles, Brasília

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Fuleiragens aforísticas II

Bi, leonina

Fuleiragens Aforísticas Úficas
As minhocas são seres intra-terrestres!

fuleiragens aforísticas III

Um dos grandes filhos da puta do século XX


Fuleiragens aforísticas filosóficas
Por que chamá-lo de Prometeu se ele cumpriu?


Fuleiragens aforísticas comunísticas
Na entrada do estádio em Pequim, na olimpíada:

O MAO é BOM

Outdoor em Cuba:
DIOS ES FIDEL!



Fuleiragens aforísticas existencialistas

Nessa vida ou você rebola ou você dança!


Você não bebe porque tem problemas, você tem problemas porque bebe!


No médico, exame de DST:
O doc. me pergunta:
O senhor faz sexo com camisinha?
E eu: não, senhor. Só com mulheres!


Lelê Teles, Brasília.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

um frevo de Capiba




Clica na imagem e boa diversão.


Se
a madame tem em casa um frevo, destes de Capiba, ponha na vitrola. Ponha também uma sombrinha na mão da moça. Pronto, a alegria tá posta!

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Fulieragens aforísticas IV

Escher, auto-retrato

Fuleiragens aforísticas agnósticas

Adão nasceu grávido de Eva; desconfio que Adão era um cavalo-marinho!

Meu vizinho de quarto era mulçulmano. Para orar ele virava o cú pro céu e orava em flatulantes cânticos. Eu perguntei: amigo, por que ficar nessa posição? E ele: estou orando para Alá. E eu disse: então vá orar pra lá.

No salmo 23 diz-se: ainda que ande pelo vale das sombras... e termina, não temerei mal algum, TUA VARA E O TEU CAJADO ME CONSOLAM!!!!

Os caras nos tempos de Davi não só viviam muitos anos como tinham pênis avantajados, a todo momento lê-se: NASCEU MAIS UM VARÃO NA CASA DE ABRAÃO.

Sem pressa pra chegar ao céu: Templo é dinheiro.

Numa rodinha de maconheiros: O ópio é a religião do povo.

Como poderia o mestre não sorrir se a ave-maria era cheia de graça?

Não tenho medo do diabo, tenho medo de suas diabruras.

o homem sem chifres é um animal indefeso.

Aceita jesus?
Só se ele deixar um scrap!


Deus é fiel; meu marido, não!

Só Ctrl+S salva!

Que Deus te adicione


Lelê Teles, Brasília

Fuleiragens aforísticas V

Escher é o cara.

Fuleiragens aforísticas naturíusticas


Ligou o ar-condicionado, tá de frescura!

Nunca mais se ouviu: mais vale um na mão do que dois voando!

Tão querendo entender a linguagem dos golfinhos, ainda nem conseguiram entender a língua do Padre Quevedo, Mangabeira Unger, Inri Cristo e Henri Sobel!

Minha vizinha fala mal das gaiolas que aprisionam os pássaros. Mas toda semana troca a água do aquário!

Malandro é o pardal, que não canta pra não ir pra gaiola!

Dizem que a Amazônia é importante para o mundo, então que o mundo pague para mantê-la de pé!

Dizem que vão dar a floresta amazônica para os europeus e estadunidenses cuidarem; eles não cuidaram nem das florestas deles!

Os europeus não gostam que arranquemos árvores, embora sejam eles que comprem as madeiras.

Brasileiro é aquele que trabalha com o Pau-Brasil. Brasileiro significa lenhador!


Lelê Teles, Brasília

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

poemas pra mulher alheia

Minhas lindas mulheres

Você não faz poemas pra sua mulher, perguntou-me uma leitora curiosa.
Não, senhora. Eu faço poemas NA minha mulher!

Lelê Teles, Brasília.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Mar e ana

o todo é a soma das partes, embora em cada parte ela esteja toda.

Mariana tem um espírito ignoto, misterioso e insular, como aquelas que vislumbram ao longe os continentes e seus contingentes. Eu sou a península que te adentra o mar e às vezes o mar que te arrebenta em fúria. Orientando a vaga escura que cava a areia branca: indo e voltando, entrando e saindo; engendrando sonhos, gestando delírios e parindo mundo.

"Tu es la vague, moi l'île nue
Tu vas, tu vas et tu viens
Entre mes reins
tu vas et tuviens
entre mes reins
E je te rejoins"



Retirou uma pétala do coração e deu-ma de presente. Tirei um verso do peito e fi-lo uma oração: Deusa voluptuosa, ninfa do éter, etérea bacante, lamba-me os olhos para que eu possa sair dessa cegueira e possa enxergar a zona erógena de tua alma. Emudecido estou desde os primeiros dias, mas basta que me salives a boca para que me torne eloquente e agradeça a cada dia com um pequeno beijo em teus grandes lábios, um beijo dos devotos, dos amantes e dos sábios. Decifra-me, dovoro-te, devolvo a ti o fogo que Prometeu roubou dos céus e deu pros seus. Afoga-me em teus hídricos afagos. Rasga teu véu de deusa e veste-se de carne para que eu possa rasgar as tuas vestes. Não, não diga nada, deixa que eu ocupo tua boca opaca, deixa que eu chupo tua língua lassa, deixa que eu seja um animal devasso. Deixa, deixa que eu te amasso.


Lelê Teles, Brasília

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

viagem astral

a ressurreição de lázaro

no memorial JK fiz minha primeira viagem astral
ao som das Bachianas Brasileiras, de Villa-Lobos

o Memorial tem forma piramidal
e serve como tumba para o Faraó do Cerrado

foi a mais agradável sensação de toda minha vida
a de saber minha alma flutuante
e foi confortante perceber que eu tenho um espírito

eu o percebi fora de mim,
embora eu não pudesse vê-lo ou tocá-lo
eu apenas o sentia:

como um transexual sente a ereção rija do falo amputado!

Lelê Teles



terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Giulita, um poema



Minha filhinha, a mais bela das poesias

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

quando éramos crianças

lua deitada no mar







Lelê Teles, Brasília

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

o muro da empáfia

Os palestinos José, Maria e Jesus, voltando do Egito.


Como será que ria o nosso senhor Jesus Cristo?
deveria ser um riso largo e poético
ou profundo e apocalíptico
ou poético e profético,
largo e profundo
Alto e frondoso
eucalíptico!

Lelê Teles, Brasília

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

de amor e diamantes


chovia lá fora

As bátegas rebatiam na vidraça

o frio refreava na varanda

o vento silvava cheio de graça

na orelha dela uma caliandra


no quarto, chovia dentro de mim

na cama, transbordava dentro dela

a chuva de dentro louca pra sair

a chuva de fora escandindo na janela

no canto

a vela velava

no pranto

a vulva votiva se revolvia

no entanto

a sombra dos corpos ardentes bailava

o assombro da cera se derretia


quando finda o fogo

ela hídrica se apaga

quando a vela apaga

eu híbrido me afogo


se a onda afaga

o fogo fica feito fado

se o corpo afunda

o mar de mim fica revolto

se na maré cheia ela grita deita e lambe

no balouçar das vagas venho e volto

Mar exangue

No bailar de amor de mar e de amantes


aderna barco, quilha ao céu

alveja crista, leva a nau

abraça, amor, rasga o véu

releva a dor que não faz mal!



Lelê Teles, Brasília

o pica-flor

A flor, com sua perna espinhosa e saliente, oculta, em sua minisaia de pétalas, a fonte do néctar dos colibris.

Os pássaros volteiam enamorados, os namorados avançam com paixão e sem compaixão, os jardineiros regam.

O beija-flor inicia sua dança erótica, sua corte esvoaçante e leve pluma.
A flor sucula, cicia, soçobra. As pétalas balouçam como barco náufrago, fragata que singra ignota.

A lua espia, o cão ladra, o bêbado canta, e os dois se amam.
Assim se sorvem por toda a madrugada, até que a ave se vai, canora e lírica.

Pela manhã, mimosa flor abre as pétalas ao sol, sonolenta e rota.
Os mais curiosos podem observar:

da perna da flor escorre uma deliciosa e sugestiva gota de orvalho...
Ou de lágrima?

Lelê Teles, Brasília


nu vens






BRILHA,

ÍGNEA COMO UM

RAIO DE SOL


DANÇA,

ANCAS E VENTRE NO

FLAVI DO ARREBOL


TU VENS

NU VENS

NUVENS TE TRAZEM

NUA


CHORA,

RESPINGAM GOTEJOS E

TE VEJO AGORA

MOLHADA NUM BANHO DE LUA

NUA


TU VENS

NU VENS

TURVAS NUAS-LUAS


TU DANÇAS SOBRE NUVENS

NUM CÉU QUE CHOVE COM

LUA E SOL

NUA!



Lelê Teles, Brasília

tsurama


Pra Surama



Eu estava num daqueles dias de praia deserta

cavando poemas com o indicador

enfiando os pés na areia quente...

o corpo ensolarado de azuis



De repente

uma torrente de sensações

se infiltra em mim



ao longe ela vem chegando

Ao ouvir

o marulho que precede

o seu agigantar

todos em volta correm em polvorosa

Só eu fico inerte

sorridente, seduzido



após a grande vaga

ela chega e me invade

me descabela, me lambe...

eu mergulho netunicamente por seu corpo aquoso,

férvido, lânguido e lépido


ela penetra por minha boca e me suga

eu penetro-a por suas bocas desnudas

e juntos somos um jorro de delírio e delícia



pela manhã

ela recua sonolenta e lassa

e deixa em mim o sinal da ressaca,

do prazer

da devassa!

Lelê Teles, Brasília



na relva tântrica

Da primeira vez que nos vimos

Ventava azul na sua voz

A primeira voz que ouvimos

Vinha de nós atados em nós



Depois a vi com homens: lânguida

Depois a vi dançar: vidrante

Depois a vi de longe: lâmina

E passei a me aproximar: galante



Uma noite a encontrei sorrisos

E com bocas para beijar

Dessa vez eu tinha sede

E vontade de saciar



De seus lábios bebi salivas

Em grandes lábios sorvi delícias

Numa árvore nos arvoramos

Com fervor e com carícias



Seus sorrisos me alegram tanto

São tantas bocas a gargalhar

Tudo nela é um encanto

Tudo em mim a faz brilhar



E tava tão úmida e quente

Tão intenso o seu desejo

Que quero estar em braços tântricos

Nas carícias de seus beijos


Lelê Teles, Brasília

sábado, 29 de dezembro de 2007

Feliz 2008

Quando a luz é amena o corpo dela flauta, as coisas flutuam...


Há os que não crêem em Deus. Estes se crêem certos. Há os deístas, estes estão cegos, e há os que se fazem surdos, estes se dizem céticos. Diga o que quiserem, desde que continuem fazendo Deus existir, porque aquele que O mata dentro de si, mata também a sua imaginação, o seu desejo de sonhar para dentro, de imergir, de transcender... Quando acordo pela manhã, ao abrir os olhos, a primeira coisa que vejo é Deus. Um centésimo de segundo antes de dormir, antes de cerrar os olhos, é Deus a última luz que me invade. Já dormindo, Deus é a minha iluminada escuridão.

Quem não tem Deus tem o quê? O verso, o verbo, o vernáculo? E isso é o quê? Deus, além de transcendente é imanente. Ter Deus já nasce consigo, como nas aranhas os tentáculos. Minha filha, que não é boba e tem somente 3 anos e meio, acha plausível a possibilidade de Deus e o vê com bons olhos. É muito sofisticado uma criança não questionar onde está este Deus que todo mundo fala e ninguém o vê....


Desculpe, caríssimo. Eu não queria falar de Deus, mas de uma Deusa...


Me parece que com a morte de Benazir Bhutto, Bin Laden derruba a terceira torre estadunidense. Quem tem olhos pra ver que veja. No mês passado fui ao festival internacional de bonecos, lindo espetáculo. Me faz pensar na morte de Benazir Bhutto. Dá mesmo para imaginar que o sentimento, a voz, os movimentos... que tudo isso venha de dentro do títere, mas a manopla branca está sempre ali, manipulando...


Então, mas eu queria falar de uma Deusa...

Dom Cappio fez o seu teatro, Sabatella o fez com naturalidade, naturalmente. A Igreja voltou, descaradamente, a interferir na vida política dos países, em quase todo o mundo. Dão ordem em políticos, interferem em assuntos médicos, científicos, tecnológicos... Querem ser a voz única dos rios, dos embriões, até mesmo das céluas, das céluas-tronco! E sempre usando o teatro. A tragédia da Paixão de Cristo tem todos os elementos do teatro grego, da tragédia grega... Quem tem ouvido para ouvir que ouça. Lembro-me que numa escola francesa, em França, uma menina foi proibida de entrar usando o véu, porque ele seria uma apologia à religião que a infante cultua. Como se as francesinhas não se vestissem como cristãs. Até o discurso de desvestir o véu já é desvelar essa hipocrisia...


Como eu ia dizendo, eu tenho uma amiga...


Ah, ia me esquecendo do holocausto! O maior genocídio da história da humanidade. O número é exato, seis milhões de judeus! Eu gostaria de lembrar que o tráfico negreiro matou 75 milhões de homens pretos. Antes dos europeus assassinos quase exterminarem a população indígena no continente, havia aproximadamente 100 milhões de índios na América. Só no território que viria a ser o Brasil, esse número chegava 5 milhões de nativos. Mas neste mundo cão, filha, só faz propaganda quem tem dinheiro!


Jura que em 2008 você não vai mais acreditar que o holocausto foi o maior genocídio da história da humanidade? E que os pretos africanos e os indígenas sul americanos só não estão nos cinemas em meio à explosões de automóveis, tiros, gelo-seco, e merchandising por falta de grana. E não estão nos livros escolares por falta de interesse.



Minha amiga se chama Olívia. Ela é linda. Feliz 2008 pra ela. E pra você também.


Lelê Teles


quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

aniversário de Marla, feliz idades

Marla e Bel, duas lindas criaturas

Tem muita gente desocupada de muito por fazer e outras entretidas em não fazeres. E tu cheia de deliciosas querências, de majestosos quereres. Quando ainda haviam Guapuruvús em nossas manhãs, ouviam-se os gerândios mudos que en-cantam em suas amórficas edificações de palavras. Os versos que tu semeias, a pá-lavra! Porque Imhotep, no Egito, e Pacal, na América Central, ergueram as mais majestosas e retumbantes cidades para as mais majestosas civilizações; tudo feito na pedra, de pedra. Mas tu ergues um continente cheio de águas somente usando a palavra como matéria prima. A matéria etérea. E forja uma nova e majestosa incivilização. Sempre você sorri, mas nem sempre você só ri. É feito de rios o teu sorriso, de margens, de matas ciliares, de cílios e de ares. O teu sorriso também é repleto de lágrimas, como são a felicidade dos poetas e a alegria dos profetas. E eu sou cheio de ti, de ti sou pleno. Tenho saudade das manhãs manhosas em que tínhamos Guapuruvús!





Sorria sempre; como o sol que gargalha lágrimas em chamas, chamuscando toda a nossa miríade de interrogações cósmicas, as nossas divagações estelares. Galileu ouviu o universo gargalhar. Se tiver que chorar, não se reprima, chore muito e transbordante, como um mar revolto a ressaquear nas pedras duras e frias, britando a sua milenar indiferença. Na hora de amar, grite. E se tiver que chingar: esparre, espirre, esporre e espurre!





Lelê Teles, Brasília

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

o arrebol dos subúrbios



O sol se escondia por trás da descor de poeira suja que emoldurava o infinito. O gorjear ficava mais calmo nas ermas paragens. As frondes sacolejavam lentas e sonolentas, a abanar insetos, como cavalo crina a cauda. Cachorro - que é bicho preguiçoso -, escorava no umbral de uma árvore e desarvorava a vida alheia de inveja canina e ferina angústia. Se chovesse teria lama, mas é seco e o ar desventa, poeira sobe sob tudo e sobre troncos. Uma estrela pontilha luz no firmamento; afirmam que se chama Dalva, não me meto a nomear estrelas, um astro não se nomeia assim como se desnomeia ministros, o astro é luz e luz em si já é palavra. No fim era o desverbo.



No descampado, mininos seminus desbrincam com bola de meia, noutro canto mininos de grude deslindam bolas de gude. No bar, os cachaceiros cantam goelas quentes e canas frias. Canelas finas desfilam por toda a paisagem. Esquálida gente emagrece o horizonte. As pipas se soltam sozinhas, gritos de gente chamam gente a gritar. Na varanda, um morcego avoa e aranha ri. Papagaio imita gente e pronuncia águas. Cavalos também habitam, ratos são animais domésticos, tem nome e apelido. Muriçoca vira brinco e baratas voam céu adentro. Nas frechas, fendas, frincas e brechas mulher nua se banha de vento e a gente se ventila a curiar. Há desejo em tudo o que tá vivo, vontade só há no que não morreu, esperança é palavra que não se cala; mininas vão sozinhas de mãos dadas.



Na ruazinha, um poste se enche de luz e escurece as sombras. As antenas estão antenadas no mundo lá fora, umas são improviso e escultura, outras são fabricadas e desfeiam tudo. Quem não olha pro chão pisa em bosta. Quem olha de mais vê o que não quer. Besouro tem olho de anu e voa sem que ciência nenhuma o explique. Dizem que a física do besouro é que está errada, como se besouro inventasse física. Besouro nem faz ginástica.



A rã rima com raiva e relva ri-se de rotina réstia. Retinas retêm rotos remoeres. Dizem que em céu cobra não avoa; vovô descorda, vovô foi cobra e hoje é cabra avoador. Quem tem dente que diga, como se faz pra morder o vento quando ele passa assoviando de viés? Diz que flauta, disso não sei. Qualquer paisagem acolhe gente triste, os sorrisos enfeiam a paisagem, paisagens não têm dentes, paisagens se abrem banguelas por mundos inteiros. Queria ter a paciência das lesmas e andar devagar a foder as pedras, como dizia Manoel de Barros. Lânguidas e gosmentas criaturas desfilam nas pedras virgens. Borboleta azul roça asas no aflato da tarde. O arrebol, que posterioriza o lusco-fusco, grada cores e aquarela tudo. É fim de tarde.




Lelê Teles, Brasília


quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

carta sem remetente


Foto: Paulo César

Gotas de som compõem uma canção de chuva. Veja meu amor, que as coisas não precisavam ser tão tristes. Mas meu coração aperta até quando danço. Porque você me garantiu que longe era um lugar que não existia e agora aqui tudo é espera e fome.Tudo é sede de alguma voz e de palavras de encontro.É que esse silêncio denso não me explica distâncias... ou talvez seja ele que nos afaste ao ponto de nem haver mais eco.



Sabe meu amor, ontem eu lembrei de você quando a previsão era de tempestades e as temperaturas ainda estavam tão altas.O ar pesado e o calor ofensivo. E havia um poema oco e insônia e falta de abraço.


(Minha poesia anda miserável e minhas cartas sem remetentes).


E quando pensei que pudesse começar a me divertir, todos foram embora da festa: eu fiquei sozinha olhando a desordem.


Sabe meu amor, sobrou apenas o meu copo vazio, taças quebradas e restos que não se aproveita mais. E depois, essas gotas de chuva que pretendem compor nenhuma canção.


Meu amor, se longe é um lugar que não existe como você me explica essa distância?

*


Texto de Marla de Queiroz:
http://www.doidademarluquices.blogspot.com/



Marla é a minha poeta favorita, ela tem estilo, substância, conteúdo, coerência, coesão e precisão. Amo os seus versos e `as vezes eles me cutucam forte o coração, como agora. Tá pra nascer uma poeta que me emocione mais do que ELA.

sábado, 8 de dezembro de 2007

gorete



Tuuuuuuuummm! Bateu!


Se você morresse hoje, o que você deixaria? Pergunta-me Gorete, que acaba de chegar e se deita conosco na grama, sob um pé de limão, a atirar cascas. Eu, pensaroso, olhar em vento e névoa nuvem, a divagar, respondo ainda longe: Deixaria este sol morrente, a lua nascente e este vento frio e morno que nos arrefece agora. Deixaria tu e ele, esta casa, estas folhas, aquelas galinhas lépidas. Deixaria o córrego que corre ali, deixaria, enfim, tudo o que não posso levar. E de ti, o que deixarias? Gorete tentando revolver-me. Tudo isso de que te falei agora, Gorete! Mas tudo isso fica, mesmo que você não morra. O sol, o céu, aquele barquinho de papel... E tu, e de ti?- Gorete você só enumerou substantivos. Eu disse sol morrente, lua nascente e vento morno. Eu os fiz assim, eu os quis assim, e neste instante eles são minhas criaturas e eu as deixo pra ti.


Gorete segue uma pomba com os olhos. As asas se esfregando no vento. A pluma se solta, flutua e pousa. A aranha ri. A rua corre para o rio e o Rio emite luz, reflete bondes, refrea gáveas, refrata cristos e corcovados. O vulto volta e vira vulva; a vara vela, a vida evola, a voz vacila... Gorete chora.


Chorando por quê, Gorete? Você gosta de mim, Fabão? Gorete, eu te adoro. Mas, só se adora a Deus, Fábio. Deus está em todas as coisas, meu anjo. Eu adoro o Deus que vejo em ti. Teu sorriso, tua nuca, tuas tranças, tuas axilas, a curva fofa da tua orelha... Vou te contar uma história, Fábio. Vai contando, Gorete... Antes me responde. Quando você pensa no céu, em galáxias, planetas... Você pensa em vida? Você vê vida?



Gorete, já sonhou com alguém que já está morto? Humm, Já. E este alguém tava vivo no sonho?- Huuummm... Tava!- Toda vez que alguém sonhar com um ente que morreu, no sonho este vai estar vivo. Acenando, nadando num pedaço de poço, voando contigo num espaço vazio. Mas vivo. Não se sonha com mortos. Sonha-se com quem morreu, mas no sonho ele vive. Só se pode projetar vida. Só se conjectura vida. Os deístas olham para cima e vêem Deus; outros buscam energias que propagam vida; outros, ainda, buscam sinais. Carl Sagan via inteligências, porque este era seu mundo interior; cérebros, mentes, inteligências. Eu vejo sóis, estrelas, planetas, galáxias, quasares. É assim que eles se mostram a mim e é assim que vejo a eles. Não os penso; pensá-los é não querer vê-los, é querer prevê-los, antevê-los. Olhando a lua, o luar, eu vejo a luz fria que emana dela, sua forma redonda. Se ela influi nas marés, me revolve e balouça o mar que tem dentro de mim. Se eu pensasse a lua ela ainda faria isto e eu nada poderia fazer, a não ser saber. Mas eu sinto-a! Ou só a sentirei se sabê-la? Aquela estrela? Está morta, diz o físico. Morreu quando? Morreu onde? Eu a vejo e não sou médium. Ela se mostra a mim. O cientista a vê por trás, por onde ela não se nos mostra. Daqui, de onde a vejo, ela continua ali, luzindo, sorrindo luzes para mim. Pensar é procurar pela morte, sentir é estar com a vida.



Gorete mirava o céu de luzes baças. Campos ermos, nuvens altas, os sons. Posso cantar uma musiquinha? Que musiquinha, Gorete?E ela baixinho: Um canto que aprendi na igreja, uma música de Deus. Toda música é de Deus, Gorete. Mas se quer cantar uma música, cante, se quer cantar uma música de Deus, deixe que Ele mesmo cante. Você conseguiria ouvir se fosse Deus cantando? Não está ouvindo, Gorete? O farfalhar das folhas, o tilintar dos galhos, o pipilar das gotas, o chuá das chuvas, o frufru do vento em teu vestido, o pulsar do teu coração, o trovejar?...




Lelê Teles, Brasília

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

oh, my dog!

toma, seu rato imundo!

terça-feira, 20 de novembro de 2007

`as leoninas Giulita, Bi e gabi

Gabi, uma fofura

"Leonina, agarra-me com tuas garras, jujuba-se em minha juba, abraça-te nos meus braços. No reino animal tua coroa está posta; urra, grita, explode e ecoa na floresta todo o teu felino-fogo-fêmeo.Faz de mim um gato babão de língua de fora a lamber-te o leite em deleite idílico.Foge comigo dos bichos todos, sejamos unos na tropical relva escura, amamenta-me, acalenta-me, me vicia.Sussura, cicia, e faz de tua cauda o estandar-te de minha adoração, a bandeira de minha danação.Sejamos os novos filhos do paraíso, animais, animados, a morder eternamente o fruto proibido.Rola comigo na grama verde, voa comigo nos céus em flor. " Lelê Teles, Brasília

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

um nome me vão



berçário estelar na constelação de Órion


Eu também sou tomado por estes formigamentos, por estas sensações de insônias, por estes arrebatamentos oníricos. Estar mudo no mundo não muda nada. Por isso, formiga em mim certas inquietações, o querer saber o sabor das palavras de Deus, se ditas. Sonhar não digo, porque Deus não dorme! Pensamentos insones viram um eterno divagar, bem devagarzinho. O maior verbete do Houaiss é o diabo. Nome com inúmeros sinônimos: aquele, o garoto, o rapaz, o sete peles etc. Deus tem um nome só, sem sinônimos. Isso mostra que o povo não tem coragem de dizer o nome do diabo em vão. Deus, não. Deus é um chiclete que tá na boca de todo mundo, quando acaba o açúcar, cospe-se fora.


Lelê Teles, Brasília

sara gaia, será?

afagar a terra, carícias no corpo de gaia

Será que a Sara sabe que santo de casa não faz milagre? Ah, disso ela sabe. Ela tem o nome da matriarca judia, esposa de Abraão: o útero da nossa civilização. Sonhar com a Sara sempre faz bem. A gente fica perdido com os encantos que ela tem. Ela tem o sobrenome da Mãe Terra, a moldura de Goya na alma de Gaia. Ela é uma santa de alma impura, cheia de candura, um demônio de saia. Não acredita em Deus, mas acredita no amor. É como descrer que esse é o caminho de quem venera a dor. Quando ela sorri eu ouço a felicidade do vento. Ela é o que há de mais lindo debaixo do firmamento.




Lelê Teles, Brasília.

livre, leve e lívida

Lena Teles Mitidieri, linda




a luz da lua

NARJARA
Em ti sinto toda a riqueza do norte. A silhueta sinuosa dos rios, a candura das águas, a brandura das aves e o coração forte. A nudez selvagem da rua, a tua civilizada beleza de mulher nua. Uma ilha ignota que esconde uma princesa, cheia de lânguidas línguas, lépidas mãos, lassas presas. O gosto suculento do fruto exótico, da boca lírica, do corpo erótico. Um raio de luz, uma cruz em que me prego em esplendor, repleto de alegria, ávido de fervor, cheio de magia, grávido de amor. Dos braços da cruz para os abraços teus. Como um homem nu se tornando um Deus!

Lelê Teles, Brasília

`as pequenas alice, betina, luanda e luna

Aos pais-amigos, preocupados com o choro de suas pequenas

A PEQUENA Luna, ANTES DE SER UM EMBRIÃO, VOOU NUM JACTO JACTANTE PARA O ÚTERO DA MÃE. APÓS, NADOU NUA NO MAR UTERINO. FOI PEIXE E FOI AVE. HOJE TEM A APARÊNCIA DE ÁRVORE. NA VERDADE ELA NÃO CHORA, ELA BALANÇA OS GALHOS, SACODE A FRONDE, ESGARÇA OS MÚSCULOS INTERNOS. 80% DO CHORO DO BEBÊ É GINÁSTICA. SEI DISSO POR OBSERVAR A MINHA GIULITA QUANDO SEMENTE. MAS UM DIA, INEVITAVELMENTE, ELA VESTIRÁ UM PAR DE ASAS E NADARÁ NUA NA LUZ DA LUA.






Lelê Teles, Brasília

ah, marla

Marla, doida de marluquices: foto guilherme machado




Ontem sonhei com um cadáver que vivia contente com os famintos que não comem bucetas. Como se isso fosse coisa que se comesse. Comé que é coser num novelo de águas, no fundo delas, tecendo um vestido de sereias? Agrupando partículas, escamando moléculas... E no fundo do vale, vida. Flores, fragrâncias, flátulos faunos... Mais ao fundo, uma fada transpondo a fenda; majestosa como um fiorde, como uma falésia que represa brisas. O barco emborca quilha ao céu, no fenômeno que reconstrói ecossistemas.

Tenho um poema de Marla nas mãos. Eles me olham léxicos. Me cumplicificam. Ontem, enquanto sonhava, vi a tatuagem que tenho na alma: era um destes mesmos poemas de Marla, que lexicam e cumplicificam. E nisso de ter uma imagem do poema, destas de que tratam a gestalt, me sinto menos ágrafo, menos astênico, úmido de húmus, como se escorresse em mim a lama que desesteriliza.

Ah, como é bom aMar-la.


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Lelê Teles, Brasília

o amanhecer na calçada


Ela tinha uma canga

tinha frio, cigarros e desejos

Eu tinha sono

frio, isqueiro e um beijo



E assim,

ficamos a noite inteira:

Acesos!

Lelê Teles, Brasília

sexy `a Prill

Priscila


HÍBRIDA DE EVA E LILITH

o quereres

HÁ DIAS QUE TE QUERO
ADIAS QUE ME QUERES!
Lelê Teles, Brasília