quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

a vegetariana e a planta carnívora




Dandara é uma mulher moderna. Desde pequena, por influência da mãe, se esforçou muito nos estudos; sempre teve uma meta, um foco, um objetivo. Mesmo quando o assunto de muitas das suas coleguinhas era somente o trivial. Por não gostar muito de trivialidades é que Dandara foi ficando cada vez mais seletiva com as amizades.


 
No ensino médio, suas amigas eram iguais a ela, o que ratifica a teoria sociológica do semelhante que atrai o semelhante. Quando conversavam com outras garotas, sempre estavam a afirmar que elas eram escravas da cultura e do machismo, e que um mundo novo era possível, bastava que elas tivessem mais autonomia e respeito. Os homens eram vistos como misóginos. Os professores como profanadores da moral, uma vez que se insinuavam para as meninas jovens, aproveitando-se da condição privilegiada que mexia com a imaginação das moças. Os professores eram sempre vistos como inescrupulosos. Vez por outra, Dandara se mostrava irascível e gritava com quem estivesse em sua frente.
 
Foi ainda no colégio que nos conhecemos. Eu estudava para fazer jornalismo, e ela para ser funcionária pública. Disse-me que escolheria o curso quando estivesse próximo ao vestibular, o que ela queria era um canudo para prestar concursos para a carreira pública. Quanto a isso não discutíamos, mas discutíamos quanto a todo o resto.
 
Dandara entrou para a universidade no mesmo semestre que eu, ela estudou Relações Internacionais. Seis anos depois ingressara na carreira diplomática. Hoje Dandara é uma mulher bem sucedida, acreditou em um sonho, lutou por ele e teve êxito. Dandara obteve as conquistas materiais que almejou, mas tem um problema. Ela descobriu que isso não é tudo. Ela tem 40 anos, não tem filhos, não tem marido e nem marida, como muitas mulheres de sua geração. O que Dandara tem é um grande problema psicológico.
 

Desde jovem que a vejo pregar contra o papel de mãe, a subserviência ao marido, a jornada humilhante de dona de casa... Eu sempre dizia a ela que queria me casar com uma mineira que soubesse cozinhar melhor que minha mãe. Dandara via isso apenas como deboche, mas ela via em mim um machistazinho escravo da cultura. Dandara, com essa paranóia feminista, descobriu o Yoga, o incenso, a Índia, o Osho e o Krishnamurti. Conheceu também, por meio da Nova Era, que no mundo existiam divindades femininas, deusas. E tudo isso caiu como uma luva pra ela.  


Dandara passou a conviver com amigos esquálidos e fleumáticos. Tomava clorofila, comia pão integral e cheirava incenso noite e dia. Enfiava pequenas agulhas no corpo, meditava, jejuava e cantava mantras. Em pouco tempo sendo bombardeada pelo proselitismo iogui, Dandara resolveu abrir uma pousada em Alto Paraíso. Depois criou uma ONG e abriu um instituto de permacultura. E foi crescendo e se tornando uma profissional, uma empresária de sucesso no ramo. Agora ela toca um restaurante de comida macrobiótica em Brasília, além da pousada em Alto. Virou diplomata da vida macrobiótica, defensora das árvores e dos animais.
 

Um dia, ela me ligou para batermos um papo. Fui até a sua casa e lhe levei uma planta de presente em um vaso, era uma Dionéia. Eu disse a ela que era uma planta com a qual ela aprenderia muito. Falei como mantê-la e a coloquei em um local onde ela teria luz e humidade. Falamos um pouco sobre a vida, eu falei da minha felicidade de ser pai. Falei que minha mulher era feliz com a sua condição de dona de casa e mãe etc. Dandara apenas ouvia. Falou-me sobre as divindades femininas, sobre a perseguição às bruxas e falou também das mulheres afegãs. Reiterou a sua abominação às burcas e pregou que um dia as mulheres do oriente seriam livres tais quais as do ocidente.
 
Mas se as mulheres do ocidente fossem realmente livres não existiriam pessoas como você pregando contra o machismo aprisionador, Dandara. Ou são livres as mulheres no ocidente e somente vocês feministas é que se aprisionam? Dandara, como sempre, ficava apenas me olhando. Esperando eu terminar o meu raciocínio. Eu continuei: Dandara, minha flor, a burca e o tubinho são imposições masculinas. E as religiões monoteístas, com seu Deus no masculino e seus profetas homens, é que criaram essa nossa forma de se vestir, aqui e alhures; concluí.
 
Dandara concordava, ela lembrou que quando os cristãos chegaram aqui as moças andavam nuas e nenhum homem as atacava para estuprá-las. Os cristãos trouxeram as roupas para cobrir as "vergonhas", trouxeram o pecado, o desejo e o estupro. Depois foram despindo vagarosamente as mulheres, até o seminu que se vê hoje. Impedir, Dandara, que uma mulher vá à escola usando uma túnica, como o fazem os franceses, é simplesmente não reconhecer que somos vestidos e despidos pela cultura, e portanto, também pela religião. As moças francesas não usam túnicas, mas vão à escola vestidas como cristãs.

 
Depois de muita conversa mole, Dandara me disse que estava aprendendo a tocar Didgeridoo, um instrumento de sopro (aerofônico) criado pelos aborígenes australianos há pelo menos 1.500 anos. Me mostrou a engenhoca, eu dei de ombros, dei-lhe três beijinhos e fui embora. . . . Lá em baixo, do estacionamento, dava pra ouvir Dandara treinando a respiração para tocar com maestria o Didgeridoo. Este instrumento exige um grau de concentração muito alto e muito treinamento. A respiração circular é o ponto mais difícil de ser atingido. Essa respiração constante faz o tocador entrar em transe, o fluxo de oxigênio no cérebro provoca alucinações. 

Depois de quase uma hora inteira tocando o instrumento, Dandara sentou-se no sofá. A visão estava um pouco turva, ela delirava. Olhou fixamente para a Dionéia. Uma mosca pequena passa voando próximo à planta, a Dionéia a seduz com sua forma vúlvica, a mosca é atraída para dentro das folhas da planta. Dandara leva um susto incrível que quase a tira do transe. A Dionéia fala com ela, com voz de planta e na linguagem floral: "oi, eu sou uma planta carnívora". E eu sou uma mulher vegetariana, respondeu Dandara, sonolenta. "Bonito, vejo que tens muitas plantas em casa e que as cultiva com carinho. No entanto, você as matará para matar a sua fome", falou a planta em clorofílicos pensamentos. São hidropônicas, disse Dandara. Gosto de ter a casa cheia de plantas, é minha horta de apartamento. Eu mesma cultivo, é mais saudável.
 
A Dionéia fala novamente, inquiridora: "e por que não comes animais, como eu faço?" Porque não preciso tirar uma vida para me alimentar, dona plantinha. "Mas você tira a vida das plantas, tirando a vida das plantas você tira o alimento de outros seres, o que provoca mais mortes. E esse aquário que tens aí na sala? Praquê aprisionar os peixinhos? Moça, é a sua religião que a impede de comer animais ou é a religião dos animais?" O quê? "Perguntei se você não come animais por causa da religião". Não dona planta, quer dizer, não sei. As religiões do mundo, quase todas se alimentaram de sacrifícios de animais para servir aos seus deuses. Eu é que não como carne por princípio. 


A Dionéia simulava um farfalhar de folhas, mas as folhas duras somente meneavam lentas, ela prosegue: "sim, muito bonito, muito bem, mas eu quero saber qual é esse princípio, dona moça?" Não sei dona planta, eu amo o reino vegetal, as plantas são irracionais e incapazes de fazer mal a qualquer pessoa. Os animais, idem. Mas as plantas existem para saciar a nossa fome. "Pois eu penso o mesmo sobre o reino animal, minha senhora. E acho que a senhora deveria aprender algumas coisas com o reino animal, como a constituição de famílias, o instinto gregário, o papel dos gêneros etc. E digo mais, é com o mesmo despudor com que a senhora come vegetais que nós carnívoras comemos pequenos animais vertebrados e insetos. E digo mais, minha querida, se a senhora fosse um pouco menor, ou eu fosse um pouco maior, eu não hesitaria em comê-la. 

Alguém tocou a campainha. Dandara despertou do transe. Arrancou a planta furiosamente do vaso e, em um ato insano, a atirou pela janela do apartamento. Abriu a porta bruscamente e era o rapaz da água, todo solícito: bom dia, a senhora pediu água mineral? E Dandra respondeu ríspida e secamente: e alguém já te pediu água vegetal ou água animal? Seu animal!

poema para os pássaros e para os peixes



O Pássaro não sabe se voa ou se nada; o pássaro não sabe de nada. 

Os peixes não distinguem se voam ou se nadam. 

Analisando friamente os movimentos são os mesmos, o uso de asas-nadadeiras, o aproveitamento de correntes (de ar e de água) e a limitação ao pélago. 

Estes seres pelágicos, que flutuam no corpo da água ou no corpo do ar simplesmente se movem, ou melhor, o movimento é que se movimenta neles, como quis Pessoa. 

O avião e o submarino, ave-peixe artificial, também não tem consciência se voa ou se nada. Mas é certo que quando choram, os peixes choram lágrimas transparentes. 

Morcego não é pássaro, baleia não é peixe, golfinho não é peixe. É certo que uma ave-maria, um ave-césar não passarão. A diferença do aquário para a gaiola evidentemente é a água. Engaiolados, os pássaros cantam uma música triste. Aquariados, os peixes choram.



Quando a gente acende a luz, pra onde vai a escuridão?

Um mito, Gorete!



Gorete gostava de caminhar pelas margens do Lago Paranoá e respirar o aflato árido de cerrado, admirando o espetáculo de cores que se forma no céu de Brasília em tempos de seca. No horizonte, ao pôr do Sol, o lusco-fusco cria gradações singulares. Há muitos mirantes
 
em Brasília utilizados para apreciar os pores de Sol, Gorete preferia as margens do Paranoá.

Fábio, o amigo-confidente de Gorete, também preferia as margens do lago, mas gostava dos cais, onde sentava em lótus e meditava. No esmaecer das cores, no escurecer do céu, na chegada da noite, eles se punham a conversar. Gorete é religiosa, tem fé e dúvidas ao mesmo tempo, em verdade a dúvida, paradoxalmente, é que fortalece a fé de Gorete. Como Fábio é cético e só tem fé na ciência, as discussões entre os dois são sempre boas para fortalecer a fé de ambos, embora por caminhos diferentes.

Com a chegada da noite, outro espetáculo de cores se apresenta na capital. Desta vez são as luzes da cidade que vão se ascendendo, colorindo as águas do lago e pontilhando iluminados matizes por casas, ruas, avenidas, praças, parques, monumentos, prédios públicos, edifícios comerciais, shoppings e apartamentos. A partir do mês de dezembro, a cidade se veste ainda mais de luzes para o natal e o reveillon. Brasília realmente fica linda nessa época do ano. Gorete e Fábio se conheceram por acaso na beira do lago. Gorete esqueceu o celular no cais, quando ligou pra ver se alguém o tinha encontrado ouviu a voz de Fábio do outro lado. Alô. Alô, eu sou a dona desse celular, disse ela. Quase você o perdeu, respondeu Fábio, solícito. Combinaram de se encontrar no cais, era início de noite. Gorete já estava em casa, pegou o táxi e foi.

Como havia outras pessoas no cais, Gorete resolveu perguntar quem era Fábio, acertou na primeira pessoa questionada. Sorriram, trocaram o cordial beijinho e Fábio esticou o celular para ela. Fábio fala amistosamente, com um sorriso alegre:

- Sabe que temos um amigo em comum?

- Ah, é? E como você sabe disso?

- A primeira vez que o seu telefone tocou era o Hermano, reconheci a voz dele e ele a minha. Você nem imagina o susto que ele levou.

- Nossa! Como esse mundo é pequeno. De onde vocês se conhecem?

- Da universidade, estudamos antropologia juntos. Quando seu celular tocou, aliás, quando ele vibrou eu levei o maior susto, a madeira começou a tremer e a fazer um barulho esquisito, quando olhei o telefone estava pra cair dentro do lago, ele foi caminhando devagarinho e já tava pra cair nesse buraquinho quando eu o resgatei.

- Puta madre, que sorte! Devo agradecê-lo duas vezes então. Dali saíram para um chopinho que se converteu em uma amizade que se arrastaria ad infinitum. Na mesa do barzinho, trocaram as primeiras impressões. Gorete falava muito e gesticulava enquanto falava. Fábio sorria, ponderava e ouvia. Em pouco tempo a conversa já estava atravessada. Gorete proferia sua fé religiosa e Fábio a contestava professando sua fé pela ciência.

- Puxa, nem sei por que a gente começou a falar disso, Fábio. Vamos mudar de assunto. - Falar disso o quê? - De religião. Já me disseram que discutir religião e política em mesa de bar é uma roubada. - Pra mim não é, Gorete. Só pra quem não sabe relativizar e contemporizar as idéias alheias. Eu não vou a bares falar de bobagens, saio com os amigos pra trocar idéias, não pra conversar tolices.

- Ainda bem. Mas por que mesmo a gente enveredou por esse assunto? - Por causa do álcool, Gorete. Todas as sociedades humanas se utilizam do artifício do uso de psicotrópicos, alucinógenos ou rituais de transe para se atingir a transcendência. A iluminação é sempre uma fuga do espaço cotidiano. Nosso aparato cognitivo necessita de um pequeno desligar do mundo tangível para absorver a possibilidade de transcendência. Às vezes, sob efeito de qualquer psicotrópico, nós ativamos esse recurso primitivo e nos pomos a cogitar sobre a religiosidade.

Gorete mexia nos cabelos, agitava os ombros e se fixava cada vez mais nos olhos de Fábio. Gorete nunca havia pensado o quão era bom estar com alguém que pensava diferente dela. E ao mesmo tempo respeitava as suas idéias e convicções.

- Você acredita no acaso, Fábio? Pergunta Gorete, inclinando o corpo para frente e falando um pouco mais baixo.

- O acaso não existe, Gorete. Fábio responde baixinho.
- Amigos, não, amigo.

- Tá, pega a tua agenda aí, Gorete.

Gorete pega o celular. Fábio pede pra ela ler os nomes das pessoas que estão na lista dela. Gorete vai falando, a partir da letra A. Adriana, Alice, André Pataxó...

Fábio a interrompe:

- Pataxó, não é antropólogo também?

- Acho que é, ele é amigo de uma amiga minha, na verdade.

- Que amiga?

- Luísa Gunther.

- Ela é uma artista alemã, criadora de pangrafismos, esposa do Wesley, um gordito de barba, literato...

- Na verdade ela é teuto-brasileira. Puxa, cara, tô de cara.

- Nós nos aproximamos por afinidade, Gorete, e não por acaso.

- Mas nem temos tanta afinidade assim, cara. Eu sou religiosa e você incréu. Fábio faz sinal de cruz com a mão:

- Credo, Gorete. Que palavra horrenda, parece nome de enfermidade.

- Não deixa de ser.

Fábio dá uma gargalhada.

- Ta bom, Gorete. Voltemos. Estávamos falando em afinidades. Quem você acha que estaria nesse cais, ao pôr do Sol? Se voltarmos lá amanhã, no mesmo horário, vamos encontrar alguém que nos conhece pelo menos de vista, de algum show, ou um vernissage, ou temos alguém em comum que conhecemos etc. Não tem nada de acaso nisso.
- Não sei não, hein. Meus pais, por exemplo, se conheceram num trem em Paris. Ele é brasileiro e ela é peruana. Isso é um exemplo do acaso agindo! - Tá, façamos como o Jackie Estripador, vamos por partes. Eles são dois estrangeiros num trem em Paris, certo?

- Certo.

– Gorete abre um meio sorriso, encantada com a facilidade de polemizar e de convencer que Fábio parece ter, ela não tira os olhos dos olhos dele.

- Seu pai fazia o quê nesse trem?

- Ué, viajava.

- Não, Gorete, viajava pra onde, ia fazer o quê em que lugar?

- Ah, ele ia para uma conferência de arquitetura numa universidade.

- E sua mãe?

- Ela dava aula nessa universidade.

- E o quê que há de acaso nisso? Dois estrangeiros que iam para o mesmo lugar, tomaram o mesmo trem. Mas cedo ou mais tarde eles iam acabar se encontrando. E como começaram a conversar?

- Papai usava casaco peruano , ela perguntou se ele havia comprado no Peru, aí começaram a conversar e viram que conheciam uma pessoa em comum lá no Peru.

- Tá vendo, a sua teoria do acaso acaba de cair por terra.

- Ufa, você é implacável, hein?

De fato, nessa noite algumas pessoas passaram pela mesa do bar e cumprimentavam um e outro, muitas cumprimentavam os dois ou se surpreendiam com o fato de os dois se conheceram, e como estavam no Beirute, um bar tradicional da cidade, freqüentado por artistas e intelectuais, ali tudo funciona como uma rede, quem não se conhece pessoalmente, conhece-se de vista e tem amigos em comum. Os dois perceberam que mais cedo ou mais tarde eles iam acabar se encontrando. Então, tudo passou a ficar cada vez mais descontraído, trocaram cigarros, sorriam muito e Gorete não parava de olhar nos olhos de Fábio.

- Em que você trabalha, Gorete?

- Estudo medicina.

- E qual será sua especialidade?

- Ah, quero trabalhar com homeopatia. Com iridologia, mais precisamente. - Então é por isso que você olha fixamente nos meus olhos, ta vendo se eu tenho problema de baço, de bexiga, de estômago...

Os dois caíam na gargalhada. Gorete ficou envergonhada de ele ter percebido que ela o olhava fixamente. Depois do chiste a coisa se dissipou, Hermano apareceu, bebeu um pouco, conversou e levou Gorete pra casa. Os dois trocaram telefone a sair com muita freqüência.

Desde então, religião e ciência pautava toda sorte de assunto em torno dos dois. Sempre no limite do respeito pela opinião do outro. Numa dessas noites, próxima ao natal, Gorete confidenciou que sentia uma certa mágoa do pai, desde a pré-adolescência, por ele não decorar a casa deles com luzes natalinas como todo mundo fazia.

- Era horrível, Fábio. O prédio todo iluminado. Todos os apartamentos decorados, as lojas, a cidade, tudo, menos a minha casa. Acho que a maioria dos filhos sofre por ter pais intelectuais, sabia?

Fábio ficou em silêncio.

Uma lua alaranjada saía de dentro do lago. Eles tomavam vinho, sentados lado a lado e aqueciam as mãos um do outro. Gorete queria falar sobre o seu trauma de não ter noites encantadas de natal como todo mundo tinha.

- Quê que você acha do natal, Fábio? Não to falando de Papai Noel, de guloseimas e presentes, essas coisas. Estou falando dessa data da cristandade, da comunhão em torno da história de Cristo. Você não acha que Cristo é uma invenção supersticiosa pra enganar os trouxas, como diz meu pai, né Fábio? Fábio respirou fundo e disse: - Você quer saber mesmo a minha opinião, Gorete?

- Claro, eu tenho o maior respeito pela sua opinião, cara. Fábio senta de frente pra Gorete e de costas pro nascer da lua. Segura nas duas mãos da amiga, olha-a fixamente nos olhos e fala baixinho:

- Gorete, Jesus é um mito!

Lelê Teles
 

publicado em novembro de 2005


Ontem eu assistia ao depoimento de Bob Jefferson pela TV Câmara. Toca o celular, atendo. Voz de mulher. Pergunta: e aí, o que achou da fala de Bob? Teatralizada, eu disse, na verdade uma ópera bufa. Tenho uma visão diferente, amanhã te mandarei um imêiu, tchau. Fixo ainda na tela, vidrado pelas palavras, provocações e insinuações de Bob Jefferson, nem perguntei quem era que falava comigo ao telefone. Ainda estava incucado com a idéia de Serra, FHC, e toda a malta do tucanato ter desaparecido durante este tempo. FHC comprou votos para a sua reeleição, deveria estar tremendo em casa, temendo que Bob abrisse a boca e dissesse o que todo mundo sabe! Na Câmara Federal o mensalão era de 30 mil lascas -segundo o desvairado Jefferson -, mas em Rondônia, segundo apuração da polícia e cobertura da imprensa, onde foi flagrado um governador tucano em prática idêntica, os deputados cobravam 50 mil lascas! Por que os mercenários de Rondônia são mais caros que os de aqui, como se eles fossem a Guarda Suíça?


Abro o imêio no dia seguinte e recebo uma mensagem com o título: Bob redimiu os políticos. Assinado Jackie. 

Pensei na voz que falou-me ao telefone, quem seria Jackie. Então lembrei-me de uma moça que morava no prédio defronte ao meu. Tinha olhos negros, cabelos igualmente negros e lisos, uma pele morena, lábios convidativos e corpo de sereia sem cauda. Criava um gato, cultivava plantas, fazia ginástica no quarto, andava nua pela casa e tinha um marido. 


Um dia conversamos muito, ela lia Padre Antônio Vieira, de quem sou fã. Na presença dela eu só pensava em teologia e nas coxas grossas e salientes que ela exibia. Ela adorava charadas, sempre fazia charada pra me provocar, querendo saber até onde eu lia Vieira e se realmente o entendia. Uma noite, em minha casa, tomando vinho, ela me fez várias charadas com os textos mais complicados do Padre Antônio, cada vez que eu acertava, ela tirava uma peça de roupa. E ficou somente nisso. 


Depois ela se mudou e nunca mais nos vimos. Três anos depois a encontro num curso de sexo tântrico. Na mesma turma que eu, aprendemos juntos, e nunca mais a esqueci. Então era Jackie que me escrevia, só podia ser, e era uma charada.


Penso nos textos de Antônio Vieira, lembro de Jackie. Onde estaria o elo? Então me lembrei que ela já havia me mandado um imêio no dia da posse do Lula, disse que estava morando na Índia e sentia saudades de mim e do Brasil. Fora isso dizia apenas: "Meu querido Alfredo, bons tempos estes nossos, temos um presidente do povo e isto é justo e louvável. Não espere que já no terceiro dia ele caminhe pelas águas do Lago Paranoá, multiplicando peixes, curando enfermos e distribuindo pães, mas ele traz consigo um pouco desta metáfora, haverá um dia em que os larápios se sentirão pequenos e alheios na companhia dele, e a sua bondade e a sua probidade serão suficientes para desencadear uma onda de renovação na vida política brasileira; então, o povo passará a saber separar o joio do trigo". 


Fiquei intrigado, era tudo e ela nunca mais falou-me nem respondeu aos meus imêios. Minha mente volta à Ópera Bufa de Jefferson. Ele achincalhou todos, enquadrou amigos, emporcalhou o nome da casa em que trabalha há mais de vinte anos, não poupou os inimigos, desencanou as Organizações Globo e incriminou-se a si mesmo. Parecia uma seção de exorcismo. Mas era uma Ópera Bufa! 


Não apresentou uma única prova e ficou claro que fez tudo pra incriminar os que têm rabo preso e salvar o próprio mandato. Acusando as velhas raposas do PP e do PL, queria preservar-se a si mesmo. Ele é um experiente advogado criminalista, é claro que não fez tudo à louca, mas fez uma grande loucura. Mas o que há de bom na fala demoníaca de Bob? Primeiro ele mostrou para toda a sociedade que este tipo de presidencialismo que temos é o pior dos regimes, porque os presidentes para poderem governar têm que contar com o patriotismo, a boa vontade e a responsabilidade com a nação de todos os membros do Congresso, caso contrário o presidente ficaria como a Rainha da Inglaterra, aquela que reina, mas não governa. 


Só que o nosso Congresso é formado, em sua grande maioria, por empresários, advogados, e um monte de novos ricos que querem enriquecer ainda mais em detrimento do país. Querem que eles sejam patriotas, então pague. Assim funciona a política neste país. Foi assim de Sarney à FHC, e não tinha como ser diferente com Lula. 


Então, Jefferson mostra que há uma gangue apátrida dentro do Congresso e que pende para qualquer lado, ou melhor, pende sempre pro lado que assina o cheque. Todos os que foram acusados por Jefferson, mesmo sem provas, são de fato culpados. Delúbio e Dirceu estão na mesma barca. Aí, lembrei-me de uma pergunta que sempre me fiz, por que Lula que nunca aceitou a idéia estúpida do comunismo se juntou a estes comunas tresloucados? E como fazer pra se livrar deles?


Ato contínuo, lembrei-me de que Bob Jefferson falara de Lula com imenso pesar, falava emocionado de quando lhe deu o aviso do mensalão e o presidente recebeu como uma facada nas costas, e disse mais, disse que Itamar Franco, Collor e Sarney, e aí fez uma pausa pra falar do príncipe sociólogo, disse que esses ex-presidentes não conheciam a realidade do país, nunca viram a fome e nem a pobreza, e que eram anestesiados e insensíveis. 

Depois disse, emocionado, que Lula nasceu pobre, conviveu com a pobreza, e sem roubar ou matar construiu a própria história e, não satisfeito, se aventurou em resgatar operários e depois se arvorou pela redenção dos pobres de todo o país. Em suma, uma ópera. E a Jackie? Neste momento me veio o texto de Antônio Vieira, como uma revelação: "Quis Deus salvar o gênero humano naquele dia fatal em que deu a vida por ele; e de que ministros se serviu sua Providência? Caso estupendo! Serviu-se de Judas, de Anás, de Caifás, de Pilatos e de Herodes; e por meio da injustiça e impiedade dos homens tão abomináveis, se conseguiu a salvação de todos os predestinados. (...) e se me dizeis que foram injustos os ministros convosco, também vo-lo concedo, posto que o não creio. Mas que importa que neste conselho fosse Judas, ou naquele Anases e Caifases, ou noutro Herodes e Pilatos, se por meio da sua injustiça tinha Deus predestinado a vossa salvação? eles irão ao inferno pela injustiça que vos fizeram, e vós por ocasião da mesma injustiça ireis ao Céu!" ....... É isso. Essa é a charada!


Neste Sermão de Padre Antônio Vieira, precisamente no Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma, estava todo o resumo da ópera. Por meio do iníquo Jefferson, Lula se livrará de Dirceu, o PT se livrará de Delúbio, a sociedade se livrará dos ladrões da direita! Bispos serão defenestrados ou não mais voltarão à casa. Os que receberam as verbas indevidas serão massacrados pela sociedade, a reforma política surgirá como um imperativo e a nossa forma de representação presidencialista será repensada. Ou seja, por meio dos ladrões sempiternos nos livraremos deles mesmos, e por meio de apátridas escrotos finalmente entraremos numa democracia representativa de fato. Salve Bob!


Será que Jackie se despirá ao saber que eu matei mais essa charada? A Índia é longe, os índios estão perto de desaparecer e o Bob é Jefferson; saravá.
Lelê Teles, Brasília

leve como um pássaro e não como uma pluma



Minha amiga, Momoko, estava cada vez mais pesada. Enamorou-se de um jovem bonito e forte; sorriso branco, cabelo curto e jogado pra trás; usava gravatas, mesmo durante dias de sol, advogava como um rábula, não lia, bebia sempre, fumava e cheirava muita cocaína; usava perfumes caros, carros caros, mulheres caras. 
 
Momoko se resguardava para um homem elegante e que a compreendesse. Encontrou o tal Raul. 
 
Ele abria a porta do carro, puxava cadeira, mandava flores; tinha bons hábitos. Momoko era dentista, era apaixonada por sorrisos construídos; tinha tara pela dentição maquiada, pelo brancor artifical dos dentes, pelo sorriso de fotografia, que é mais uma careta que um sorriso. Mesmo de boca fechada, ela estava a imaginar a arcada de um homem, a mordedura etc. 
 
 
Momoko era uma menina recatada, dormia cedo, no máximo às onze, por isso nunca saía à noite com Raul, mas nunca o impedia de sair; confiava nele, nos hábitos dele, no caráter dele, em seu amor. No máximo saíam pra jantar, Raul a deixava em casa e ia encontrar os amigos. Momoko tinha uma silhueta delgada, fina - não mantida à cocaína, como a silhueta das tops internacionais -, mas por bons hábitos alimentares e por uma feliz combinação genética. 
 
 
O casamento durou dois anos. Raul passou a inventar posições sexuais cada vez menos confortáveis para Momoko e cada vez mais bizarras. Chegava de madrugada, suando álcool, e vinha com uma sede alucinada pra cima dela. Dava fortes tapas em seu rosto, a chamava de nomes estranhos, de outros nomes, de nomes de outras mulheres; pedia para ela dizer que era sua puta, que era cachorra, que era vadia etc. Momoko temia desgostá-lo e seguia caninamente as orientações do amado tresloucado. Até que um dia resolveu dar um basta e parar com tudo. Ele a chamou de frígida, que ela não era mulher para ele, que ele não sentia tesão por ela, por isso tinha que chamá-la pelo nome das garotas que ele ficava à noite. Sobretudo prostitutas. Momoko ficou horrorizada. Depois ele abriu o imêio e mostrou fotos dele com mulheres no motel, outras com homens e mulheres e uma em que ele chupava um homem enquanto outro o enrabava por trás. 
 
Depois da separação, Momoko não saía mais de casa. Passou a ter nojo de homem. Só, infeliz, comeu muito e engordou como uma porca. Escreveu centenas de cartas para si mesma. Com uma imensa vontade de morrer. Não suportava o peso do mundo, e nem o seu próprio. Numa noite de lua cheia, ela subiu na sacada (décimo primeiro andar), vestiu um lindo vestido que nem lhe entrava mais e saltou num mergulho lívido para o infinito. 
 
 
Que maneira estranha de se livrar do peso do mundo, pensei. Aí, lembrei-me de Paul Valéry: “é preciso ser leve como o pássaro e não como a pluma”! Lembrei-me também de Ítalo Calvino. Pensei nas brancas e alvas formas inventadas por Cruz e Sousa, um subterfúgio, usar o branco para mostrar o negro. Imaginei que Laila tinha vontade de voar, e não de cair como um machado sem cabo dentro do mar. O desejo de voar é antigo, e a certeza de se conseguir também. Cyrano de Bergerac, quando quis ir à lua, besuntou-se com tutano de boi para ser atraído, de outra vez quis ser alçado por gotas evaporantes de orvalho. Os iogues, longe do peso do mundo, levitam. Cristo, que parecia proferir um paradoxo quando disse “o meu jugo é leve”, também jogava com o desejo de voar, e, ao ressuscitar, pairou no ar para ser visto por Madalena, como um beija-flor divinizado. Elias, no Velho Testamento, sobe aos céus conduzido por uma carruagem de fogo. O carro é pesado, mas o fogo que o consome o alça em fumo e vapores de fumaça; bela alegoria. No tempo em que as mulheres eram subjugadas por tudo e por todos, algumas se livravam deste peso voando em vassouras. Os avatares e cavalos do candomblé, pretas gordas geralmente, pairam numa outra dimensão, enquanto leves espíritos povoam seus corpos, aliviando a vida dos que aqui se encontram. Os hindus traziam seus deuses em carros, veículos que desafiavam o próprio peso e pairavam no ar... 
 
 
Seguramente Momoko voou para a imensidão. No momento em que seu corpo físico tocou o chão, seu espírito rasgou o solo e mergulhou numa viagem deliciosamente leve e lívida. Mordia raízes, molhava-se em freáticos lençóis d’água, nadava na terra, transpunha crostas, engolia fogo, infinitava-se, infinitesimalmente. Leve como o pássaro que flutua no pélago espacial, determinando o próprio destino e fazendo o próprio caminho, e não como a pluma que flutua ao sabor do vento, sem saber.
 
Lelê Teles

publicado em novembro de 2005. O Mensalão.

Jackie

Domingo, dominus dei. Antes de começar a leitura de Padre Antônio Vieira abro o imêio. Há um somente, e é da Jackie. "Para Alfredo, com carinho". Abro, uma foto linda. O ambiente é iluminado por luzes que vêm de velas acesas, aprumadas por belíssimos castiçais. A luz realça e contorna o escuro, magnífico artifício. Seguramente é a mesma luz que utilizava Caravaggio, Rembrandt e Velásquez. 
 
 
O cenário é rústico e belo: uma poltrona aveludada e de cor fulva, uma ave empalada e igualmente aterciopelada, uns tecidos finos e translúcidos sobre o resto da mobília que compunha a ampla sala onde a foto fora feita. 
 
 
Em destaque: uma mulher, imagem feita por cima dos ombros, ela levemente inclinada para tocar os pés, as costas nuas, as pernas nuas. De frente e agachada, uma outra mulher de feições exóticas. A mulher que está sentada é Jackie, conozco sus espaldas, a mulher que a defronta está com um cântaro na mão, enquanto que a outra mão está delicadamente segurando um dos pés de Jackie. 
 
 
Os pés estão besuntados, pela forma com que Jackie se curva para frente parece que ela vai repreender a moça do cântaro. Fico firmemente absorto, a foto me suga, mas não consigo compreender o que quer dizer. Em seguida vem outra foto. 
 
Agora nota-se uma alcova, um pálio com sedas transparentes, tapetes forrando o chão, dois homens seminus de pé. Sentada, à cabeceira da cama, está Jackie. Veste o que seria uma camisola, mas o ombro que se mostra está desnudo. A tomada é lateral e vemos a moça de frente para o espelho, nota-se a dupla imagem, ela se contempla simplesmente. 
 
 
A cena é linda, fico nela por alguns minutos. Os lábios estão entreabertos, os cílios despencam, o seio se mostra meigo. O lugar parece um cenário feito só pra estas fotos, nunca vi nada em nenhum lugar parecido a isso, em nenhures, ou nusquam, como se diz em latim. 
 
 
Mas ainda havia uma terceira foto, uma escada enorme e um pouco espiralada. Embaixo da escada, ao pé, estava Jackie, esperando alguém. Acima, ainda com a iluminação das velas que tremiam nos castiçais, apenas um vulto indistinguível; na escada subiam mulheres nuas de um lado e desciam homens nus do outro.
 
 
No final de tudo um textinho curto: Adorável Alfredo, feliz por você ter matado a charada do outro imêiu com tamanha argúcia, em anexo tô mandando uma foto exclusiva pelo seu merecimento. Quer mais? Então vamos a isto: Jefferson, o iníquo, nos remonta a Protágoras; Lula, ao chamar pra si o discurso ético compreende Protágoras em Jefferson e se faz medir medindo-se. Jacó. Beijos. Eternamente, Jackie.
 
 
Que jactância, a foto era muito mais do que o que eu merecia por um simples jogo de charadas. De costas, deitada, nua, com o corpo cheio de óleo aromático (imagino), um pote pequeno com óleo ao lado. Ela sobre a esteira. Entrava uma luz clara e amarelada pela janela, as cortinas adejavam lentas. Ela estava de bruços, com a perna esquerda esticada e a direita levemente curvada, como que fazendo um P com as pernas. No pescoço, ela está de cabelos curtíssimos, há uma tatuagem em hebraico escrito "e o verbo se fez carne". A foto foi feita a partir dos pés, a vista era deslumbrante. 
 
 
Fiquei boquiaberto, as mãos pediam cigarro, acendi. Coloquei a foto como protetor de tela e fui digerir o que tudo aquilo queria dizer. Se ficasse olhando a beleza das fotografias iria sempre viajar para os antípodas da mente, como diria Huxley. Peguei um livro de Antônio Vieira e fui pra rede descansar. 
 
 
 
Jefferson, Lula, Protágoras, Jacó. Uma escada, uma moça com um cântaro, velas e castiçais, nada mais. Vou montar, quero mais destas lindas fotografias. Espalhei as palavras do meu puzzle pelo chão imaginário e fui montando com a mente, peça por peça. O que tem Jefferson, Protágoras, Lula e Jacó a ver um com o outro? Encontrei o elo entre Protágoras e as bravatas de Jefferson, uma parte tá pronta. Lula compreende Jefferson, pronta a outra parte. Que diabos Jacó faz aqui? 
 
 
As fotos, as imagens devem ter algo a ver com isso. A moça do cântaro nada tem a ver com Jacó, montei todo tipo de combinação e nada. Mesmo porque, assim, sem sobrenome, este Jacó só pode ser o personagem bíblico. Puta madre, claro, o cântaro nos remete a Pedro (Domine, tu mihi lavas pedes). Jesus lavando os pés dos discípulos. Pedro, como sempre, hesitante (tu mihi, vós a mim?). Por isso Jackie parece repreender a moça que lhe vai lavar os pés, era uma dica a que texto consultar. Então, lembrei-me de um Sermão de Padre Antônio Vieira onde ele fala da encarnação de Deus, todo confuso o texto, talvez o mais confuso de Vieira. Mas há ali a imagem da escada, Jacó vê uma escada que vem do céu e anjos subindo e descendo, ele percebe que não pode subir e observa que Deus não desce, então ele se dá conta da tamanha distância entre Deus e o Homem e ratifica a imagem dos anjos como seres intermediários e intermediadores. É disso que se trata, vamos à frente. 
 
 
Jefferson é um gatuno de primeiro time. Um "sócio" seu foi pego nos Correios com a boca na butija. A casa caiu. Percebendo-se no pior dos mundos, Jefferson lembrou-se da ópera, e percebeu que tudo começa com um crescendo até ter um ápice, as pessoas estão prontas pra essa fórmula, por que não tentar? Então dedurou todo mundo, jogou merda no ventilador e misturou fatos reais com invenções absurdas, como a de duas malas enormes pra levar 4 milhões de reais, esta quantia cabe em duas valises. 
 
 
Então montou um esquema, denunciou uma operação de roubo escandalosamente gigante, acusou todo mundo e livrou somente Lula da Silva. O povo, que deveria atirar pedras em Jefferson já o via como um injustiçado querendo fazer justiça, já não saía de casa pra não ter que dar autógrafo; de vilão a mocinho em um ato. O mais absurdo é que no Roda Viva Jefferson se mostra corrupto, mas diz que em seu conceito não o é, disse que não é corrupto mas afirmou que a política corrompe e que ele já está na política há mais de 20 anos, e repete o que todo mundo sabe, Lula é um caro ético e justo, com isso agrega à sua imagem este homem ético e justo, um truque. 
 
 
Aí está Protágoras, "o homem é a medida de todas as coisas". No tempo de Protágoras o homem não significava a humanidade, mas sim o indivíduo. Jefferson mede tudo a partir de si mesmo, e a partir dele tudo é mensurável, inclusive a ética, e era disso exatamente que falava Protágoras. No mesmo programa em que Jefferson disse que as pessoas poderiam acreditar nele porque ele falava a verdade, disse que defendeu Collor de 103 acusações e Collor se livrou de todas. Se temos que acreditar em Jefferson então devemos crer que Collor é inocente! 
 
A outra parte diz "Lula, ao chamar pra si o discurso ético compreende Protágoras em Jefferson e se faz medir medindo-se". Bom, aqui fica claro que Lula compreendeu a aproximação conceitual de Bob Jefferson e saiu-se em defesa de si mesmo.
 
 
Agora vejo a leitura que Jackie fez do pronunciamento do presidente remontando a uma metáfora bíblica: In principio erat Verbum, Verbum caro factum est e em seguida: Et habitavit in nobis. O verbo se fez carne e habitou em nós, porque não disse habitou entre nós, perguntava Antônio Vieira no Sermão do Mandato. Se a ética era algo que estava entre Lula e os seus, então o presidente teria que ter um partido inteiramente ético e andar com pessoas inteiramente éticas. Se Deus está entre nós ele não pode estar em todo lugar, mas se ele está em nós ele está por toda parte ("Enquanto encarnado, se estava Cristo em uma cidade, não estava noutra: enquanto sacramentado, não só está em todas as cidades, senão em tantas partes da mesma cidade em quantas hoje o temos", Vieira). 
 
 
Lula disse que a moral ele aprendeu com os pais e passava para os filhos, não seria um mandato passageiro que determinaria se ele era ou não ético. Assim, Lula trouxe pra si o discurso protagórico e chutou Jefferson, "eu meço a ética e a moral porque ela parte de mim, é um princípio meu. Jefferson é um canalha que se agrega aos outros para agregar valor a si mesmo". No velho testamento diz Davi: Abyssus abyssum invocat, um abismo chama outro abismo. E estão os dois à beira do precipício, Jefferson não tem tanta bala na agulha, os gestos são repetitivos, a oratória é cansativa, a voz não é muito boa, outro dia voltava da dentista e passei debaixo do prédio onde ele mora e ouvi o que chamam de um homem cantando óperas; sinceramente, francamente!
 
 
Assim, por meio da escada de Jacó vemos que Lula não desce até o patamar de Jefferson, e este não subirá jamais ao trono onde se senta o ex-operário. Os mensaleiros são os querubins e serafins do nosso presidencialismo cínico, dependente de apátridas que sobem e descem a todo instante e servem a dois senhores. Matei mais uma charada. Quando será que Jackie volta ao Brasil?

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Lívida

japinha




Nus vendo

Começamos com uma relação espiritual. Tomávamaos chás, nadávamos nas etéreas águas transcendentes. Nutríamos.

Depois passamos às relações carnais. Ela bebia em mim o chá natural que frutifica. E eu nadava pelas águas profundas do seu ser etéreo. Nu tinhamos.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

estado de graça

japinhas


Em casa tudo se casa.

Na sala, uma lua branca e nua entrava pela janela, como uma borboleta que passa suave pelos jardins com o seu voo de ave.


Do quarto, ouvia-se o murmúrio infantil da chuva fresca, com aquele friozinho gostoso que penetra as frestas.

Do lado de fora, a noite madrugava lírica e inocente. E a mais adulta das inocências madrugava dentro da gente.

Como a lua e a chuva nas janelas eu entrava nela, com a pureza das aves, das borboletas, das chuvas e das luas, e com a adulta inocência das noites que madrugam.

A gente se deitava sobre o outro no sofá e ela tava tão linda com o corpo banhado de lua. Seus cabelos sorriam, seus olhos gozavam, sua boca beijava cada palavra que proferia (seus seios duros em taças) e seu rosto era a beleza em estado puro, em estado de graça!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Gérmen de trigo



Japinhas


Dormi a gosto, acordei Setembro. Na primeira manhã do mês da primavera, ela se espreguiçou na cama como uma flor que desabrocha. O pólen que perfuma o seu corpo-pétala lufava no espaço tênue do quarto. Ela me deu uma abraço cheio de beijos.

- Bom dia, flor!
- Bom dia, amor!

Ela sorriu com os olhos. Eu gargalhei com o coração. Fui à varanda e trouxe um cravo que tirei do vaso e o coloquei atrás de sua orelha. Ela meneou a cabeça com os olhinhos infantis e puros.


Molhou os lábios e me beijou com ternura. Lá fora, farfalhava as árvores ensolaradas de sabiás. Um nesga de sol se imiscuía no quarto, se esfregando na fresta da janela. O mar chuava ao pé da varanda.


Ela se levantou, escovou os dentes, escovou os cabelos, escavou as gavetas e encontrou uma carta que ela escrevera na noite anterior. As letras bem torneadas, desenhadas esculturalmente, como ela, diziam: "quando chegar Setembro quero fazer-me flor e borboleta. Quero-te abelhoso, casuloso, invólucro e envolvente. Quero-te amável e aderente. Quero-te árvore, quero-me semente. E queiramo-nos assim, pra sempre".


Ela fechou a carta e abriu um sorriso amigo. Eu abri os braços e lhe fechei um abraço abrigo. E sentamos pro café da manhã, polinizados de gérmen de trigo.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

lenabah

BBB: busto, buço e boca

quando sonhei dormi com lena e ela era um livro tatuado de significâncias, onde cada significante resignificava-se, continuamente. o livro onírico e perfumado que eu lia noite adentro, o livro-ela, abria-se em minha cama como uma dama que se esparrama quente. tudo o que lia nela, tesava.


cada página do livro-ela era uma pétala de roupa. deliciava-me a molhar as pontas dos dedos e desfolhá-la, pagina por página, peça por peça: a página brincos, a página vestida de vestido que eu despia, a página mínima da calcinha, a alcinha que ocultava o busto, a página pêra.


as tatuagens que vinham pelo caminho ainda não eram letras, eram signos imagéticos de cores rubras e quentes que ilustravam. As tatuagens letras ficavam na parte interna da página, porque esse é o único livro que tem a parte interna da página, que fica entre as duas faces da folha, à flor da pele. com olhar atento era possível ler a sua alma. as letras soletram sonhos.


começo lendo-a pela orelha do livro-ela. a ponta molhada da língua sussurra quentinho cada letra tatuada na orelha-livro, prefaciando. depois, mansamente, a morder as cores corpo do pescoço que meneia em brasa. aí, recitar, boca pra boca, língua pra língua, a estrofe beijo, poemando. a cada página uma surpresa, a cada linha lida uma linda descrição do corpo dela, e narrador e leitor se misturam fagocitósicos, os corpos em brilhos como brilham os corpos celestes, estelares.


eu tinha desejo de carne, ela desejava verdura. vegetariano, ia mordendo tudo o que nela frutivicava: a batata da perna, as maçãs do rosto, as mangas da blusa, aquela fruta hídrica que cresce na árvore que fica entre suas pernas... eu tinha desejo de carne, ela desejava verdura.



à medida que a noite avança, o quarto escura, a luz se tênua, e eu aproximo mais ainda o livro para lê-lo de perto. encosto o meu nariz no nariz do livro-ela, ofegamos juntos. a boca anseia beijo. vermelha, entreaberta e molhada. quando a língua entra ela fica hídrica. a leitura, no abrir de páginas, no abrir de pernas, no abrir de coxas, mescla poema erótico, conto profano, romance sórdido, diário de putas. as vírgulas das virilhas, a concha úmida em reticências e o ponto final do umbigo exclamam.


depois de lê-la intenso, eu viro a página. e fica tudo ainda mais lírico. as costas pacíficas e a cintura atlântica, a bunda índica. Um oceano inteiro de letras vivas a decifrar-se. E como se lendo um livro de trás pra frente, começamos tudo de novo: molhar orelha, morder pescoço, deslizar. Antes de dormir, soprar a vela e fechar o livro-ela, com os dedos ainda presos nas páginas-pétalas, a sussurrar.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

a professora






Entrou na minha sala exalando nínfico perfume
fechou a porta atrás de si e deixou-se penetrar
as mãos macias, a voz macia, uma safadeza tão elegante no caminhar
contava-me que ministrava idiomas e contabilidades
tributos, números, álgebras... tinha mesmo uma certa certeza no olhar


trocamos duas palavras enquanto ouvia o que seu corpo dizia
quero ter aulas de língua com você
em que língua devemos começar?
comecemos pela sua

e pela minha


Lelê Teles, Brasília

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

animal doméstico

as cobras são surdas
as baratas são cegas
as girafas são afônicas.
pinguim não é peixe
morcego não é ave
e o homem é um animal doméstico.

aflora a fauna


Se há selva
a seiva salva
o vento verga
formigas saúvam
sálvias ervam
os símios silvam
a fauna aflora.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

na janela

Dali, muchacha en la ventana


perfumou-se toda.

ajeitou o busto, as sombrancelhas e foi para a janela.

ao longe o por do sol olhava pra ela: triistes!

as virgens

que venham as virgens em cardumes.


como as piranhas.

uma santa






passávamos o dia inteiro no fundo da sacristia,

tomando vinho e comendo hóstia.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

sobre plantas carnívoras e mulheres vegetarianas




Olívia vivia sozinha em seu apartamento.
Era vegetariana e mantinha em um vaso uma planta carnívora.
Elas achavam graça uma da outra.



Lelê Teles, Brasília

sobre os pets


Tia Adélia não gostava de circo com animais.
"Lugar de animal é na natureza, não é totó",
perguntava para o seu cãozinho de pulôver.



Lelê Teles, Brasília